A importância epistêmica do voto feminino
Myllana Aguiar da Silva Lourenço
Doutoranda em Filosofia pela UFMT
Marina Reginatto de Wallau
Mestranda em Filosofia pela UFMT
17/08/2026 • Coluna ANPOF
Nos últimos meses, a extrema-direita brasileira tem adotado o discurso extremista estadunidense de contrariedade ao voto feminino, direito conquistado apenas em 1932 e tornado obrigatório em 1965 no Brasil. Alguns influenciadores, por meio de uma ideologia cristã extremista, defendem a unidade de voto familiar (liderada pelo marido) e verbalizam explicitamente que “as mulheres estatisticamente votam mal” [sic] (ARIADNE, 2026). Curiosamente, influenciadoras do mesmo campo político também são publicamente favoráveis à restrição das mulheres nas eleições, enquanto votam e se candidatam aos cargos legislativos. Na perspectiva dos influenciadores em questão, mulheres (e outros grupos minoritários) tendem a votar mais em candidatos(as) posicionados à esquerda. Porém, dados do Instituto de Pesquisa DataSenado, de 2024, parecem apontar não um posicionamento feminino mais à esquerda, e sim menos à direita; ao mesmo tempo, quase metade das mulheres dizem não se identificar com nenhum dos posicionamentos do espectro político. Isso, é claro, não se traduz necessariamente em votos, visto que a maioria dos eleitores parece preferir não se rotular.
O discurso reacionário vigente é evidentemente perigoso por diversas razões de ordem prática: ataque ao sufrágio universal, reforço de valores patriarcais, estímulo a um ambiente mais violento contra as mulheres, entre outros. No texto que se segue, porém, quero falar do elemento epistêmico da discussão, visto que conhecimento, política e poder se entrelaçam de diversas maneiras. Não me proponho a divulgar os nomes dos autores de algumas nefastas falas neste breve ensaio, e sim trazer reflexões filosóficas a respeito do tema.
Inicio a discussão com a premissa de que o voto não é desinteressado: ele parte de um lugar socialmente situado, no qual permeiam diversos conhecimentos construídos coletivamente. Filósofas feministas da Teoria do Ponto de Vista, como Sandra Harding (2007) e Nancy Hartsock (2019), defendem a tese de que todo conhecimento é produzido a partir de uma posição social específica. Em vez de imaginar um sujeito neutro e universal, afirmam que classe, gênero, raça, sexualidade e outras condições influenciam o que conseguimos perceber e compreender do mundo. Um exemplo disso, tratado por Donna Haraway, é a maneira como os corpos femininos foram sistematicamente negligenciados pela ciência ao longo da história. Durante muito tempo, homens foram usados como padrão em pesquisas médicas, e os resultados eram generalizados para as mulheres, o que trouxe e traz ainda hoje inúmeros malefícios para esse grupo, uma vez que problemas que afetam especificamente mulheres não são identificados ou são negligenciados. Neste sentido, é compreensível que a participação das mulheres revolucionou a academia e o conhecimento como um todo, à medida que trouxe à tona o interesse dos problemas vivenciados por esse grupo. Partindo dessa perspectiva, no que tange às eleições, é possível crer que minorias, ao tomarem consciência de sua condição e terem liberdade de expressar-se nas urnas, tendem a direcionar seu voto aos candidatos que desafiem ao menos parte do status quo, visando melhorias das desigualdades históricas vivenciadas por elas.
O Brasil é um país no qual a cada 6 minutos uma mulher é estuprada (Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2025). Nesse contexto, em 2003 um deputado verbalizou publicamente para uma colega parlamentar a sentença “Não te estupro porque você não merece” [sic], uma década depois complementando que a razão do “não merecimento” é a aparência física dela, a qual o desagrada (RAMALHO, 2016). Enquanto isso, já há recursos hermenêuticos, construídos coletivamente por mulheres ao longo de séculos de luta, que explicam e condenam o estupro, que possibilitam a compreensão e ações concretas de combate.
Em 2018, o mesmo político candidatou-se ao executivo federal, e venceu. O levantamento feito pelo DataFolha entre 24 e 25 de outubro indicava vantagem para o candidato tanto entre homens quanto entre mulheres. Já em 2022, quando ele buscava a reeleição, as pesquisas mostravam um cenário diferente: aparentemente, mais da metade das mulheres se posicionavam contra o autor das problemáticas frases, enquanto mais da metade dos homens seriam a favor (dados coletados entre 23 e 25 de outubro de 2022, Poder360). Não obstante, destaco que as mulheres constituem não apenas a maioria da população brasileira, quanto também a maioria votante (TSE, 2022), fato que parece preocupar o campo político reacionário.
Dessa maneira, compreendo que o voto expressa um ponto de vista, um ideal a ser concretizado, e tem consequências práticas à medida que políticos eleitos (com a forte influência da burguesia, claro) regem parte significativa das regras sociais formais. Desse modo, ainda que as eleições não sejam a única ferramenta política, o voto feminino manifesta as demandas das mulheres em um mundo ainda desigual: direito ao controle reprodutivo, combate às violências sexuais, feminicídio e discriminação, socialização do trabalho do cuidado, equidade em oportunidades acadêmicas e de trabalho, entre diversas demandas entrelaçadas com outras injustiças sociais. Essas demandas, para surgirem, precisam não apenas da vivência, mas também de trocas epistêmicas concretas entre o grupo, de modo que seja possível produzir sentido, conceitos e inteligibilidade. Essa produção é uma arma potente na luta política.
Há séculos, mulheres vêm se organizando, debatendo e construindo coletivamente a compreensão das injustiças e de como construir um mundo melhor. Antes, porém, com maiores limites. Hoje, com direitos conquistados à duras penas, como o voto livre individual, direito à escolarização, ao trabalho, ao divórcio e à própria individualidade. Na prática, esses direitos possibilitam uma construção cada vez mais sólida e potente de conhecimento a partir do ponto de vista das mulheres, mediante a participação em importantes instituições.
Se antes não poderíamos sequer aprender a ler, hoje escrevemos e produzimos ciência, pensando em problemas que homens não atribuíam importância. Se nosso trabalho era apenas o cuidado doméstico, hoje podemos não só explorar e adaptar o mercado de trabalho às nossas necessidades, como também demandamos o reconhecimento do trabalho doméstico como um trabalho. Se antes o marido definia legalmente todos os passos da vida de uma mulher, agora podemos nos desvincular e seguir uma vida independente. Se antes, por fim, não poderíamos eleger uma candidata que manifestasse nossas demandas, tornando a luta ainda mais árdua por estar fora da institucionalidade, agora temos parlamentares feministas e cotas mínimas para iniciar a inclusão e pautar publicamente o debate (convém destacar que a presença de mulheres na política não garante o fortalecimento das pautas feministas, como já exemplificado a partir de candidatas antifeministas e contrárias aos direitos políticos das mulheres).
O ataque ao voto feminino, a meu ver, não visa apenas reduzir direitos, mas também intenciona o silenciamento sistemático de todos os conhecimentos produzidos por e para mulheres, conhecimentos esses que são práxis: enfatizam e combatem as desigualdades estruturais. Miranda Fricker (2023 [2007]) criou o conceito “injustiça hermenêutica”, o qual nomeia o fenômeno no qual certos grupos, ao serem excluídos das trocas epistêmicas, são impedidos de construir sentidos de suas experiências. A produção de conhecimento, nesse contexto, é necessária não apenas para a compreensão das vivências das mulheres, como também para fortalecer a luta contra o patriarcado. O voto das mulheres tem o importante papel de dizer o que o mundo é para nós, enquanto buscamos construí-lo. Votamos em quem combate a cultura do estupro, pois construímos o conhecimento desse fenômeno categorizando-o como violência. Votamos em quem defende equidade no mercado de trabalho, pois elaboramos teorias sociológicas robustas que refutam a noção patriarcal de que há uma divisão sexual do trabalho natural.
Margaret Atwood (2017 [1985]) já havia demonstrado que um cenário distópico de opressão extrema não começa de uma vez. Em Gilead, a retirada de direitos básicos das mulheres foi feita aos poucos, de maneira que parecia aceitável e justificável devido ao pretexto de garantir a segurança contra as crises de natalidade que a população enfrentava. Assim como os atuais influenciadores de extrema-direita, os líderes que tomaram o poder em Gilead também defendiam (e concretizaram) uma teocracia altamente misógina e hierárquica. Uma das personagens, Serena Joy, se destacou como figura pública na defesa do regime, posteriormente sofrendo com as restrições aos seus direitos. No cenário dessa obra, a possibilidade de construção de conhecimento pelas mulheres é reduzida ao mínimo possível, tendo em vista os limites impostos ao mero ato de conversar entre pares sem supervisão de comandantes. Nomear fenômenos, produzir conceitos, elaborar teorias e estratégias torna-se um desafio quase impossível de ser superado. É esse cenário que está sendo construído pela extrema-direita.
Por fim, mas não menos importante, destaco dois últimos pontos. Neste texto, argumento em defesa do voto não de maneira idealizada, e sim dentro dos limites que a democracia burguesa impõe – participar da política institucional é uma das formas de pautar debates, realizar demandas e botar em prática determinados conhecimentos sobre a realidade, mas ainda tendo em vista que os meios de produção, e consequentemente o maior poder, pertencem aos detentores do capital. Além disso, é imprescindível compreender que mulheres não são o único alvo, e que o ataque não finaliza com a retirada do voto. Logo, compreendo que é nosso papel explicitar as dinâmicas sociais envolvidas para que essa elucidação sirva à nossa própria prática política.
REFERÊNCIAS
ARIADNE, Bruna. Do“mulher vota mal” ao fim do voto feminino: como a extrema direita transforma ataques às mulheres em estratégia política. Jornal Opção, Goiânia, 27 jul. 2026. Artigo de opinião. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/artigo-de-opiniao/do-mulher-vota-mal-ao-fim-do-voto-feminino-como-a-extrema-direita-transforma-ataques-as-mulheres-em-estrategia-politica-851049/. Acesso em: 31 jul. 2026.
ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Dados de violência sexual e estupro de vulnerável em 2025. Brasília, DF: MJSP, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/03/brasil-estupros-2025.ghtml. Acesso em: 16 jul. 2026.
FRICKER, Miranda. Injustiça epistêmica: o poder e a ética do conhecimento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2023.
G1. Pesquisa Datafolha de 2 de outubro para presidente, por sexo, idade, escolaridade, renda, região, religião e raça. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/03/pesquisa-datafolha-de-2-de-outubro-para-presidente-por-sexo-idade-escolaridade-renda-regiao-religiao-e-raca.ghtml. Acesso em: 21 jul. 2026.
HARDING, Sandra. Feminist standpoints. In: HESSE-BIBER, Sharlene Nagy (ed.). Handbook of feminist research: theory and praxis. Thousand Oaks: SAGE, 2007. p. 45-69.
HARTSOCK, Nancy C. M. The feminist standpoint revisited, and other essays. New York: Routledge, 2019.
PODER360. Lula foi eleito por mulheres, pobres e nordestinos. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/governo/lula-foi-eleito-por-mulheres-pobres-e-nordestinos/. Acesso em: 21 jul. 2026.
RAMALHO, Renan. Bolsonaro vira réu por falar que Maria do Rosário não merece ser estuprada. G1, Brasília, 21 jun. 2016. Política. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2016/06/bolsonaro-vira-reu-por-falar-que-maria-do-rosario-nao-merece-ser-estuprada.html. Acesso em: 31 jul. 2026.
SENADO FEDERAL. Instituto de Pesquisa DataSenado. Pesquisa sobre posicionamento político: como entender melhor os eleitores de esquerda e de direita em sete pontos. 2024. Disponível em: https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_posicionamento_politico/2024/interativo.html#como-entender-melhor-os-eleitores-de-esquerda-e-de-direita-em-sete-pontos. Acesso em: 21 jul. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (Brasil). Eleições 2022: mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro. Brasília, DF, 18 jul. 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Julho/eleicoes-2022-mulheres-sao-a-maioria-do-eleitorado-brasileiro. Acesso em: 21 jul. 2026.
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