A SATURAÇÃO DO PRESENTE E A CRISE DA IMAGINAÇÃO POLÍTICA: Eleições, catástrofe e a disputa pelo possível no Brasil de 2026
Denise Narli da Silveira
Doutoranda em Filosofia pelo PPG da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
19/10/2026 • Coluna ANPOF
Há momentos em que uma eleição transcende a disputa eleitoral para se tornar sintoma de transformações profundas na maneira como uma sociedade organiza seus medos, identifica seus inimigos e imagina seu futuro. O primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 é um desses momentos. O que emerge das urnas é a consolidação de uma força política que, há mais de uma década, vem recompondo afetos, ressentimentos e percepções do mundo social. Compreender essa força exige mais do que condená-la: requer investigar as condições sociais, afetivas e imaginárias que tornam possível a adesão que desperta.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (BRASIL, 2026), Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva conquistou 45,16%, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. Esses números permitem formular duas afirmações simultâneas: a extrema direita brasileira chega ao segundo turno em uma posição de força excepcional, mas o desfecho permanece incerto. Entre o reconhecimento da primeira e a recusa da segunda, cristaliza-se uma questão fundamental: a facilidade com que uma correlação provisória de forças pode transformar-se, no imaginário coletivo, em fatalidade.
Escrevo a partir do Rio Grande do Sul, onde a expressiva votação da direita e da extrema direita torna particularmente visível a recomposição conservadora da sociedade brasileira. Essa realidade adquire contornos inquietantes quando confrontada com as inundações de 2024, que expuseram dramaticamente a vulnerabilidade das condições de habitabilidade em nosso território. A experiência da catástrofe climática, entretanto, não produz automaticamente uma consciência de suas determinações. Sofrer uma inundação não conduz necessariamente à compreensão da crise ambiental, assim como experimentar a precariedade econômica não resulta, por si só, em uma crítica ao modelo econômico. Existe uma disputa entre a experiência e sua interpretação. É precisamente nesse intervalo que a política atua.
A extrema direita compreendeu essa dimensão com notável eficácia. Sua força não reside apenas na desinformação, mas também na capacidade de oferecer explicações aparentemente simples para experiências sociais complexas. A insegurança econômica, a violência e a desorientação diante das transformações sociais convertem-se em narrativas que identificam culpados e organizam pertencimentos. A complexidade social dá lugar à figura do inimigo. O bolsonarismo não se limita a apresentar candidaturas: produz uma comunidade afetiva, uma linguagem e um horizonte de identificação.
É nesse contexto que proponho pensar a saturação do presente. O presente torna-se saturado quando ocupa o horizonte da experiência de tal maneira que já não conseguimos perceber suas fissuras. Os acontecimentos sucedem-se incessantemente, as informações circulam e as crises exigem respostas imediatas. Paradoxalmente, essa hiperatividade pode produzir uma forma singular de imobilismo. Somos continuamente convocados a reagir, mas progressivamente privados do tempo necessário para imaginar. O futuro permanece diante de nós no plano cronológico, mas perde sua diferença qualitativa, tornando-se simples prolongamento das forças existentes. O provável coloniza o possível.
Essa formulação dialoga com o diagnóstico de Donatella Di Cesare (2018) sobre o fechamento do horizonte político contemporâneo e a dificuldade de conceber alternativas ao existente. Quando uma sociedade perde a capacidade de imaginar aquilo que ainda não existe, a política tende a reduzir-se à administração do presente. A afirmação de que não há alternativa passa a estruturar nossa própria experiência histórica.
Walter Benjamin oferece uma chave decisiva para interromper essa lógica. Sua crítica à concepção progressista da história questiona uma temporalidade que transforma continuidade em necessidade. Contra o tempo homogêneo e vazio do historicismo, o Jetztzeit, o tempo-do-agora, restitui ao presente uma intensidade capaz de interromper a sequência aparentemente natural dos acontecimentos (BENJAMIN, 2012). O presente não constitui apenas o ponto intermediário entre um passado encerrado e um futuro predeterminado. É também o lugar onde aquilo que parecia contínuo pode ser interrompido.
Desde a redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno da eleição presidencial em segundo lugar conseguiu vencer o segundo. Esse dado histórico merece atenção. O problema começa quando aquilo que descreve o passado é convertido em lei do futuro. O possível não se confunde com o provável. O provável prolonga tendências inscritas no presente; o possível começa onde a história deixa de ser percebida como destino.
Na tese IX de Sobre o conceito de história, Benjamin contempla o Angelus Novus, de Paul Klee. Onde percebemos uma sucessão de acontecimentos, o anjo identifica uma “catástrofe única” que acumula incessantemente ruínas (BENJAMIN, 2012). A catástrofe pode residir precisamente na continuidade de uma normalidade produtora de destruição. Nesse sentido, a imagem benjaminiana do “freio de emergência” permite pensar a interrupção da marcha em direção à catástrofe. Interromper a negação climática, a banalização da violência e a erosão democrática significa recusar que determinada orientação histórica se imponha como a única possível.
Giorgio Agamben aprofunda essa abertura por meio da categoria da potência. Se a potência fosse apenas aquilo que inevitavelmente se converteria em ato, seria indistinguível de uma determinação. Sua estrutura conserva também a possibilidade de não passar ao ato. Como observa o filósofo, “o pensamento existe como uma potência de pensar e de não pensar” (AGAMBEN, 2015, p. 14). Politicamente, essa estrutura permite compreender a abertura como presença de possibilidades ainda não atualizadas. Entre a impotência de quem acredita não poder fazer nada e a fantasia de que um único gesto transformaria tudo, encontra-se o território concreto das ações capazes de modificar relações.
Hannah Arendt acrescenta a essa perspectiva a categoria da natalidade. A ação política está vinculada à capacidade humana de começar, introduzindo no mundo algo que não pode ser inteiramente deduzido das condições precedentes (ARENDT, 2010). Ao refletir sobre os automatismos históricos, Arendt observa que um ato, considerado a partir do processo cujo curso interrompe, aparece como um “milagre”, isto é, como “algo que não poderia ser esperado” (ARENDT, 1990, p. 218). Não se trata de uma intervenção sobrenatural, mas da capacidade humana de introduzir descontinuidade. Um precedente histórico pode determinar aquilo que julgamos provável; não pode determinar aquilo que permanece possível.
Essa abertura, entretanto, não pode permanecer apenas como categoria filosófica. Existe uma tentação particularmente forte entre aqueles que trabalham com pensamento, educação, ciência, arte e cultura: confundir lucidez com ação. Compreender uma conjuntura não significa transformá-la. Reconhecer mecanismos autoritários não os interrompe automaticamente. A consciência crítica é indispensável, mas pode converter-se em uma forma refinada de impotência quando encontra satisfação em compreender aquilo diante do qual permanece imóvel.
Talvez seja esse um dos desafios mais incômodos deste segundo turno. Nós, que passamos nossos dias entre salas de aula, gabinetes, bibliotecas, livros e periódicos científicos, precisamos perguntar o que significa levar a sério aquilo que pensamos. A resposta não consiste em abandonar o pensamento em favor de um ativismo irrefletido, mas em permitir que o pensamento encontre consequências na ação.
Arendt compreende a política como espaço de pluralidade e aparição, constituído entre pessoas diferentes que falam e agem em um mundo compartilhado (ARENDT, 2010). Defender a democracia exige, portanto, ultrapassar os circuitos nos quais apenas reafirmamos convicções entre semelhantes. Reconhecer componentes autoritários, racistas, misóginos e negacionistas na extrema direita não significa atribuir indistintamente essas características a todos os seus eleitores. Uma análise responsável deve distinguir entre um projeto político, seus núcleos ideológicos e a heterogeneidade das motivações daqueles que o apoiam.
É precisamente aí que a consciência crítica precisa encontrar sua dimensão prática. É necessário sair dos gabinetes, das universidades e das telas. Conversar com quem não votou, com quem votou em branco ou nulo, com quem escolheu outras candidaturas e também com quem votou na extrema direita, sem iniciar o encontro com a certeza de já conhecer inteiramente o outro. A democracia não se sustenta apenas pela reafirmação de nossas convicções, mas pela disposição de disputar sentidos e reconstruir possibilidades de convivência.
Virar um voto é uma operação mínima sobre o campo do possível. Multiplicada por milhares de encontros, ela pode alterar aquilo que as projeções apresentam como mais provável. A matemática eleitoral não promete uma virada, mas tampouco autoriza a resignação. Uma das vitórias mais profundas de qualquer projeto autoritário ocorre quando consegue convencer seus adversários de que sua vitória é inevitável.
A história não nos deve um futuro democrático. Cabe a nós responder pelo mundo que deixaremos àqueles que estão chegando. A consciência crítica que não encontra consequências na ação corre o risco de reduzir-se à consciência da própria impotência. Por isso, o gesto político mais consequente talvez seja também um dos mais simples: sair, encontrar, ouvir, dialogar, argumentar, persuadir. Levar o pensamento para as ruas. Não sabemos se isso bastará. É precisamente porque não sabemos que a ação permanece necessária. O futuro permanece aberto porque aquilo que hoje se apresenta como provável ainda não se converteu em destino.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento: ensaios e conferências. Tradução de António Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Revisão técnica de Adriano Correia. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 1990.
BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Organização e tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Flávio Bolsonaro e Lula vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. Brasília, DF: TSE, 5 out. 2026.
DI CESARE, Donatella. Sulla vocazione politica della filosofia. Torino: Bollati Boringhieri, 2018.