Christian Wolff e o wolffianismo

Emanuel Lanzini Stobbe

Pós-doutorando na Universidade Estadual de Londrina

01/09/2026 • Coluna ANPOF

Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos

Christian Wolff (1679-1754) é um “ilustre desconhecido” na história da filosofia e, em especial, na história da filosofia alemã. É frequentemente lembrado por conta dos comentários de Kant – muitas vezes críticos, ainda que com certo tom de elogio –, mas também por referências em outros autores de maior destaque, como Hegel e mesmo Schopenhauer e Heidegger. Contudo, tal lembrança passa longe de envolver um estudo apurado e sistemático – de modo que Wolff é relegado a uma nota de rodapé, esquecido e datado, como uma peça de antiquário filosófico etiquetada como “dogmática” e, portanto, “ultrapassada”. Pouco se conhece, entretanto, que ele foi um dos maiores expoentes filosóficos da primeira metade do século XVIII – na Alemanha e mesmo na Europa. De fato, podemos dizer que Wolff está alocado praticamente na gênese da filosofia alemã como a entendemos hoje – tanto pelo estabelecimento e tratamento de questões filosóficas que formam o contexto e ponto de partida das filosofias que começam a surgir no final do século, quanto porque muito do vocabulário utilizado pelos mais célebres filósofos de língua alemã provém da sistematização feita pelo filósofo de Breslau e Halle. Mas quem foi Christian Wolff – e qual foi sua obra? E quem foram seus seguidores, os “wolffianos”, dos quais parecemos conhecer ainda menos do que o próprio Wolff?

Nosso filósofo nasceu em Breslau, na região histórica da Silésia [Schlesien] em 1679, e faleceu em Halle an der Saale em 17541. Apesar de seus inúmeros interesses – dentre os quais a teologia, a matemática, e o direito –, foi na filosofia que sua produção intelectual mais se destacou. Em 1703, defendeu sua tese de habilitação: a Filosofia Prática Universal, elaborada segundo o método matemático. A relevância dessa pequena tese, de cerca de quarenta páginas, está alocada na tentativa de sistematizar as bases da filosofia prática utilizando o próprio método matemático – por meio de definições, axiomas, observações, proposições, teoremas e problemas. Já neste primeiro esboço da disciplina vemos o cerne da filosofia prática de Wolff: a obrigação do ser humano da busca por sua perfeição e pela perfeição em geral.

Após a defesa de sua tese de habilitação, Wolff começa uma longa e relevante correspondência com Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), de quem herdará filosoficamente muito – em especial, o chamado “princípio de razão suficiente”, que permeará sua filosofia madura. De fato, é nesse sentido que podemos falar de um racionalismo forte em Wolff – remetendo ao Grund (razão como fundamento) da “razão suficiente”. Não obstante o clichê histórico-filosófico, iniciado já à época de Wolff – de que ele seria um mero sistematizador do pensamento genial, porém disperso, de Leibniz – a crescente bibliografia secundária sobre Wolff tem buscado, em muitos sentidos com êxito, demonstrar o quanto sua filosofia difere daquela de Leibniz em pontos cruciais. Por exemplo, Wolff não é adepto estrito da “harmonia pré-estabelecida” (por mais que a considere a melhor resposta para explicar a relação entre alma e corpo), e nem propriamente da “monadologia”, possivelmente a doutrina leibniziana mais característica.

Apesar de conseguir um cargo como professor de matemática em Gießen, opta por trocar pela universidade Fridericiana de Halle an der Saale. Aos poucos, começa a direcionar suas pesquisas para a lógica, a metafísica e a filosofia prática. Tal interesse culminará com a publicação de vários tratados em língua alemã, para um público tanto acadêmico quanto mais amplo: a série de obras intitulada “Vernünfftige Gedancken” (“Pensamentos Racionais”) – das quais os volumes que mais se destacam são a Lógica Alemã (1713), a Metafísica Alemã (1720) e a Ética Alemã (1720). Podemos dizer que este foi o primeiro sistema de filosofia publicado em língua alemã, ainda que autores anteriores a Wolff já houvessem começado a publicar no idioma.

A metafísica wolffiana nos é conhecida, principalmente, por intermédio de sua recepção em Kant. Divide-se em metafísica geral (a ontologia, definida como a ciência do ente enquanto ente, isto é, do ente em geral) e metafísica especial, que se ocupa dos objetos da metafísica (a psicologia trata da alma; a cosmologia, do mundo; e a teologia concerne a Deus). Por mais que muito se diga que Wolff também seria um precursor da Aufklärung, devemos levar em consideração o papel da recepção da Escolástica e, sobretudo, da Escolástica tardia em seu pensamento. Nosso filósofo se encontra, nesse sentido, no ponto de encontro entre duas grandes tradições filosóficas, a saber, o Escolasticismo e o Iluminismo (e, assim, também o Criticismo): por um lado, ele retoma noções escolásticas clássicas, que considera relevantes e mesmo cruciais; por outro, ele vê a necessidade de um exame apurado dessas, buscando maior clareza e distinção para tais noções. A própria literatura secundária vem mostrando que a alcunha de Wolff como pejorativamente “dogmático” no sentido kantiano não fez jus a esse ímpeto crítico wolffiano – para utilizar o termo em sentido amplo.

A filosofia wolffiana se espalhou por toda a Europa por conta de um peculiar detalhe biográfico de grande relevância. Os teólogos hallenses, de orientação pietista, não viam com bons olhos as incursões de Wolff na filosofia e na teologia. A situação se agravou em 1721, quando Wolff, ao passar o cargo de pró-reitor da universidade para seu rival pietista Joachim Lange (1670-1744), escolheu um tema altamente provocador para seu discurso: o reconhecimento da lei natural da busca da perfeição mesmo em povos não-cristãos, especificamente os antigos chineses e Confúcio. Wolff não era, contudo, avesso à religião: de fato, o ponto por ele defendido afirmava que o ser humano tem acesso ao conteúdo da lei da natureza por meio de sua razão (Vernunft) – comum a cristãos, a não-cristãos e também a ateus. Entretanto, os pietistas apelaram ao Rei da Prússia, Frederico Guilherme I, pedindo a expulsão de Wolff de Halle e do reino. Assim, Wolff precisou se refugiar em Marburg (em Hessen), e ali começou uma série de escritos em latim, mais extensa que a série de escritos em alemão, com caráter apologético – defendendo-se das críticas pietistas de que sua filosofia fomentaria um tipo de ateísmo, determinismo, etc. Ao escrever em latim, e ao direcionar seu estilo de escrita ao público acadêmico, Wolff buscou refúgio na tradição a ele precedente – sem, contudo, negligenciar os grandes avanços que a própria modernidade trazia consigo.

Ainda na década de 1720, muitos filósofos e filósofas se tornaram adeptos da filosofia wolffiana, a ponto de defendê-la veementemente contra os ataques pietistas, e de ajudar a propagá-la por toda a Europa. Até o “retorno triunfal” de Wolff a Halle em 1740, sua filosofia já se expandira por diversos países pelo continente. Nesse contexto, podemos distinguir pelo menos três grandes levas de filósofos wolffianos2: (1) contemporâneos e contemporâneas a Wolff, como Georg Bernhard Bilfinger (1693-1750), Ludwig Phillip Thümmig (1697-1728), Israel Gottlieb Canz (1690-1753), Jakob Carpov (1699-1768), Johann Gustav Reinbeck (1683-1741), Heinrich Köhler (1685-1737), Johann Christoph Gottsched (1700-1766) e sua esposa, Luise Adelgunde Victorie Gottsched (1713-1762); (2) aqueles e aquelas logo depois da maior parte da produção acadêmica de Wolff, como Johann Friedrich Stiebritz (1707-1772), Carl Günther Ludovici (1707-1778), Friedrich Christian Baumeister (1709-1785), Jean Henri Samuel Formey (1711-1797), Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), Georg Friedrich Meier (1718-1777), Daniel Nettelbladt (1719-1791), Andreas Böhm (1720-1790), Johanna Charlotte Unzer (1725-1782); e (3) aqueles e aquelas que já se encontram no contato com a filosofia de Kant, como Moses Mendelssohn (1729-1786), Johann August Eberhard (1739-1809), entre outros. Por fim, Wolff faleceu em 1754 em Halle – e já nas décadas seguintes sua filosofia foi relegada ao segundo plano, principalmente por conta do triunfo da filosofia kantiana.

No minicurso “Introdução à filosofia de Christian Wolff e ao wolffianismo”, a ser ministrado no XXI Encontro ANPOF deste ano, buscaremos oferecer um voo panorâmico sobre a filosofia de Wolff (seu desenvolvimento, suas principais noções e argumentos) e sobre a história do wolffianismo. O minicurso acontecerá no contexto do projeto de cooperação “A Filosofia Prática Universal de Christian Wolff e sua recepção no contexto alemão” (financiado pela Fundação Araucária e pelo Deutscher Akademischer Austauschdienst, também com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Esperamos, assim, ajudar a difundir dentro da comunidade filosófica brasileira as pesquisas sobre o filósofo e o tema – jogando luz a esse ângulo da história da filosofia que pode contribuir para as pesquisas da história da filosofia alemã em geral.


Bibliografia

  1. ALBRECHT, Michael. Christian Wolff und der Wolffianismus. In: HOLZHEY, Helmut (hrsg.). Grundriss der Geschichte der Philosophie. „Die Philosophie des 18. Jahrhunderts. Bd. 5. Heiliges Römisches Reich Deutscher Nation, Schweiz, Nord- und Osteuropa. Basel: Schwabe, 2014, p. 103-218.

  2. ALBRECHT, Michael. Die philosophischen Grundüberzeugungen des Wolffianismus. In: STOLZENBERG, Jürgen; RUDOLPH, Oliver-Pierre (hrsg.). Christian Wolff und die Europäische Aufklärung. Akten des 1. Internationalen Christian-Wolff-Kongresses, Halle (Saale), 4.-8. April 2004. Teil V. Hildesheim – Zürich – New York: Georg Olms Verlag, 2010, p. 13-30.

  3. ALBRECHT, Michael. Wolff an den deutschprachigen Universitäten. In: THEIS, Robert; AICHELE, Alexander (Hrsg.). Handbuch Christian Wolff. Wiesbaden: Springer VS, 2018, p. 427-465.

  4. BILLER, Gerhard. „Biographie und Bibliographie“. In: THEIS, Robert; AICHELE, Alexander (Hrsg.). Handbuch Christian Wolff. Wiesbaden: Springer VS, 2018, p. 5-31.

  5. COPLESTON, Frederick. A History of Philosophy. Volume 6. The Enlightenment. Voltaire to Kant. London – New York: Continuum International Publishing Group, 2011.

  6. ÉCOLE, Jean. Introduction a l’Opus Metaphysicum de Christian Wolff. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1985.

  7. ÉCOLE, Jean. La métaphysique de Christian Wolff. Hildesheim – Zürich – New York: Georg Olms Verlag, 1990.

  8. KERTSCHER, Hans-Joachim. „Erbrachte Licht und Ordnung in die Welt“. Christian Wolff – eine Biographie. Halle (Saale): Mitteldeutscher Verlag, 2018.

  9. KLEMME, Heiner. „daß mich Gott der Universität gewiedmet hätte“. Christian Wolff und die Erfindung der allgemeinen praktischen Philosophie. In: Hallesche Beiträge zur Europäischen Aufklärung. Herausgegeben von: Interdisziplinäres Zentrum für die Erforschung der Europäischen Aufklärung. Berlin, Boston: Walter de Gruyter, 2020.

  10. KLEMME, Heiner. Werde vollkommen! Christian Wolffs Vollkommenheitsethik in systematischer Perspektive. In: STOLZENBERG, Jürgen; RUDOLPH, Oliver-Pierre (hrsg.). Christian Wolff und die Europäische Aufklärung. Akten des 1. Internationalen Christian-Wolff-Kongresses, Halle (Saale), 4.-8. April 2004, Teil 3, Hildesheim, Zürich, New York, 2007, S. 163-180.

  11. LANZINI STOBBE, Emanuel. Reason, Perfection, Obligation: Christian Wolff and the Kantian Counterpoint. Tese de doutorado. Martin-Luther-Universität Halle-Wittenberg; Universidade Estadual de Campinas (cotutelle de thèse), 2023.

  12. SCHIERBAUM, Sonja; WALSCHOTS, Michael; WALSH, John (eds.). Christian Wolff’s German Ethics. New Essays. Oxford: Oxford University Press, 2024

  13. SCHWAIGER, Clemens. Christian Wolff. A figura central do Iluminismo Alemão. In: KREIMENDAHL, Lothar (org.). Filósofos do século XVIII. Tradução de Darkwart Bernsmüller. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004, p. 65-88.

  14. SCHWAIGER, Clemens. Das Problem des Glücks im Denken Christian Wolffs. Eine quellen-, begriffs- und entwicklungsgeschichtliche Studie zu Schlüsselbegriffen seiner Ethik. Stuttgart-Bad Cannstatt: Friedrich Frommann Verlag, 1995.

  15. STOLZENBERG, Jürgen; RUDOLPH, Oliver-Pierre (hrsg.). Christian Wolff und die Europäische Aufklärung. Akten des 1. Internationalen Christian-Wolff-Kongresses, Halle (Saale), 4.-8. April 2004. Hildesheim – Zürich – New York: Georg Olms Verlag, 2007-2010. 5 v.

  16. THEIS, Robert; AICHELE, Alexander (Hrsg.). Handbuch Christian Wolff. Wiesbaden: Springer VS, 2018.

  17. WALSCHOTS, Michael. Why we should recover the philosophy of Christian Wolff. Aeon, 12 oct. 2023. Disponível em: https://aeon.co/essays/why-we-should-recover-the-philosophy-of-christian-wolff. Acesso em: 15 ago. 2026.


1 Para detalhes biográficos, seguimos: Biller, 2018; Kertscher, 2018; Klemme, 2020; Walschots, 2023.

2 Sobre o wolffianismo, ver, sobretudo: Albrecht, 2004; 2014; 2018.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.