Dez anos da Coluna Anpof

Rodrigo Ornelas

Doutor em Filosofia e membro do GT Poética Pragmática (UFBA)

André Itaparica

Professor titular da UFRB, professor permanente do PPGF/UFBA

16/09/2026 • Coluna ANPOF

Em 22 de setembro de 2016 a Coluna ANPOF foi inaugurada com a proposta de propiciar um palco para “debates entre a filosofia e a experiência contemporânea”[1]. A iniciativa ocorreu no fim da presidência do prof. Marcelo Carvalho, ganhando volume durante a dupla gestão do prof. Adriano Correia. Entre os temas que se destacaram naquele começo promissor estavam o ensino de filosofia (tratado desde o primeiro texto da Coluna pelo prof. João Carlos Salles), a democracia (vivíamos o impeachment da presidente Dilma Rousseff), questões de gênero (naquele ano era formalizado o GT Filosofia e Gênero) e a “filosofia brasileira”, que mobilizou o debate que destacaremos aqui.

A proposta da Coluna foi recebida com entusiasmo pelo nosso grupo, o Poética Pragmática (UFBA), fundado por José Crisóstomo de Souza em 2008, já que a ideia de “debates entre a filosofia e a experiência contemporânea” sempre nos foi norteadora. Respondemos ao novo espaço na primeira hora, através dos textos de Crisóstomo, a propósito da filosofia brasileira.

Por ocasião dos dez anos da Coluna ANPOF, lançaremos, em novembro próximo, durante o XXI Encontro da ANPOF, a coletânea Intervenções Filosóficas (Editora Pimenta Cultural), com uma seleção da participação do nosso grupo na Coluna ao longo desses dez anos, entre outubro de 2016 e fevereiro de 2026 – quase todos publicados aqui, com as exceções seguindo a proposta de formatação enxuta e intenção dialógica. Com o presente texto queremos marcar a efeméride lembrando o debate que aproximou inicialmente o nosso grupo deste espaço, assunto que ainda ressoa (provavelmente sempre ressoará) na nossa comunidade.

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No prefácio da mencionada coletânea, Adriano Correia lembra que “um dos maiores entusiastas da Coluna ANPOF, desde seu início, foi o colega e amigo José Crisóstomo de Souza, que identificou na Coluna uma convergência notável com sua ‘poética pragmática’ como uma filosofia crítica ‘do fazer, da criação e do ato’”. Essa adesão imediata, seguida depois pelo resto do grupo Poética Pragmática, se deu na contenda sobre filosofia brasileira, entre, sobretudo, outubro e dezembro de 2016.

Ela começa com uma provocação do prof. Rafael Haddock-Lobo (“Filosofia brasileira – uma questão?”, 06/10/2016), seguida por uma resposta do prof. Vladimir Safatle (“Seria necessário algo como uma ‘filosofia brasileira’?”, 19/10/16). A partir de dezembro entraram no debate os professores Crisóstomo de Souza (“De como ainda não fazemos filosofia mas bem podemos começar a fazer”, 01/12/16)[2], Julio Cabrera (“Filosofar desde o Brasil: além de uma mera questão ‘nacional’”, 20/12/16), Carla Rodrigues (“A filosofia (brasileira) não é feita só por homens”, 22/12/16) e novamente Crisóstomo (“Safatle, o nacional impopular e nosso desejo de fazer filosofia”, 01/02/2017)[3].

Haddock-Lobo inaugura a discussão, apontando a importância da questão sobre a existência de uma filosofia brasileira. O texto pergunta-se sobre o porquê de não falarmos em uma filosofia brasileira, se temos uma literatura brasileira ou uma música brasileira, por exemplo. O autor entende que essa dificuldade passa pela história colonial, que se reflete na nossa academia; e que a filosofia ocidental/europeia é apenas um componente da experiência nacional. Para ele, só poderemos falar em “filosofia brasileira” quando “tratarmos os sistemas de pensamento iorubá, por exemplo, ou os ameríndios, como importantes elementos à especulação filosófica” [4], redefinindo, como filósofos, inclusive, o que é para nós a própria filosofia. Seria, portanto, uma questão de descolonização para “pensarmos de modo mais amplo e radical a experiência de nossa cultura, de nossa sociedade, de nosso tempo”.

Em sua resposta, Safatle questiona a própria categoria de “filosofia nacional”. Para ele, termos como “filosofia inglesa” ou “filosofia alemã” não descrevem uma unidade, mas construções culturais das burguesias nacionais do século XIX, no contexto da consolidação do Estado-nação. A questão não seria, então, se existe uma filosofia brasileira, mas por que não conseguimos nos organizar como campo – um espaço institucional de debate, transmissão e crítica. É um deslocamento do plano cultural-identitário para o institucional-sociológico: Safatle observa que vivemos as relações de transmissão acadêmica como relações de filiação (não de debate). Não seria o caso, assim, de falarmos em filosofia brasileira; mas “para que a filosofia no Brasil possa se afirmar faz-se necessário pararmos de pensar sobre relações de filiação, em todos os níveis”.

O texto de Crisóstomo de 01/12/2016 não cita os anteriores, mas coloca-se no debate. Exaltando a iniciativa da ANPOF com a inauguração da Coluna, ele convoca a nossa comunidade a superar o comentário exegético e passar a filosofar, de fato, com entendimento próprio e discussões sobre problemas contemporâneos, defendendo que essa é a condição prévia, mais fundamental que a questão nacional ou institucional, para que uma filosofia brasileira exista. Para o autor, a maior parte de nossa comunidade filosófica faz – e com competência nesse âmbito – história da filosofia. Ela pratica uma leitura exegética interna, de comentário a autores, sem chegar a formular um pensamento próprio ou debater problemas contemporâneos. O texto dá exemplos de algumas exceções (ou tentativas), convocando-nos a fazer, ensejados pela Coluna, uma filosofia mais autônoma.

Cabrera amplia o debate para uma discussão latino-americana. Sua proposta é substituir “filosofia brasileira (visão nacionalista)” e “filosofia no Brasil (visão empírica ou fatual)”, pela ideia de “filosofar desde o Brasil (visão histórico-existencial”), recuperando reflexivamente a experiência colonizadora. Ele critica igualmente o nacionalismo, mas sem dissolver a legitimidade de um filosofar latino-americano. Sua tese “é que a não ocorrência de um filosofar autoral no Brasil vem produzida pela própria lógica interna da produção filosófica brasileira” – i.e., a crença de que dominar a filosofia metropolitana seria condição necessária para filosofar. O caso, então, não seria pensar em “características nacionais” das elaborações filosóficas, mas “erguer construções culturais alternativas e insurgentes desde América Latina” (e o Brasil). Para Cabrera, conquanto a questão da filosofia brasileira não faça sentido, a de “filosofar desde o Brasil” permanece legítima e urgente.

O texto de Carla Rodrigues retoma os anteriores apontando uma ausência estrutural: as mulheres. Ela move o foco da questão para mostrar que a filosofia brasileira (e a discussão sobre ela) permanecerá incompleta, reproduzindo sua própria lógica excludente, enquanto não incorporar mulheres-autoras. Ela argumenta que tal exclusão do campo filosófico é homóloga (e reforça) à lógica de filiação descrita por Safatle; e que ampliar o cânone com autoras não é secundário, mas condição para a abertura proposta por Haddock-Lobo. Citando este último sobre fazer filosofia como “um modo mais amplo e radical da experiência de nossa cultura, de nossa sociedade, de nosso tempo”, ela conclui que mulheres têm “que estar presentes em qualquer elenco de autores”. Para ela, um debate sobre a filosofia brasileira que não inclua as mulheres como sujeitos (não apenas como objeto temático) permanece parcial, o que implicaria uma reforma curricular e institucional.

Concluímos esta memória desse debate inicial da Coluna ANPOF com outra contribuição de Crisóstomo, recuperando as anteriores (inclusive a sua, com a qual conecta as demais – o que não havia feito diretamente antes). Ele escolhe Safatle como interlocutor central por ver em seu texto a “posição mais mainstream na filosofia acadêmica brasileira”. Começando pela questão do nacional “impopular”, argumenta que o fato de o pós-estruturalismo ter sido “usado” de modo distinto nos EUA não torna Foucault ou Derrida menos franceses, mas apenas revela uma apropriação americana. Uma tal apropriação (inclusive de tradições estrangeiras) é, para ele, exatamente o que nos falta. Ao desvalorizar o nacional, desmobilizamos a apropriação ativa (autoral) de que a filosofia brasileira precisa, o desejo produtivo de filosofar a partir de referências próprias. Ele recupera a ideia do seu texto anterior: o modelo comentador-exegético (não a “falta de nacionalidade”) é a causa real da ausência de um filosofar mais autônomo. Crisóstomo propõe, enfim, que, entre nós, fazer filosofia – genuinamente, sobre problemas e temas (inclusive de gênero, como, por exemplo, fez Carla Rodrigues) – já resultaria, por si, em fazer filosofia brasileira, sem que seja necessário perseguir a marca nacional (ou cultural, local, identitária) como objetivo.

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Na coletânea que em breve ofereceremos ao público, o Poética Pragmática não apenas presta homenagem aos dez anos da Coluna ANPOF; o grupo quer apresentar ideias, expor um modo de fazer filosófico, tomar parte de questões e também convidar os leitores para o debate. Entendemos que assim se faz filosofia – e filosofia brasileira. Celebramos esse marco com o desejo de que aquele mote fundador da Coluna siga ecoando na filosofia brasileira, neste seu espaço original, que talvez precise recuperar sua relevância inicial, ou em outros, acadêmicos ou não, físicos ou virtuais.[5]


[1] Cf. “COLUNA ANPOF: um projeto de debates entre a filosofia e a experiência contemporânea

[2] E, de alguma forma, também com o texto “Unger, filosofia brasileira e singularidade da nossa experiência contemporânea” (de 16/12/16).

[3] O mesmo tema ainda reapareceria em um texto posterior de Crisóstomo: “Giannotti, a USP e a filosofia brasileira (A propósito dos 40 anos da ANPOF)”, publicado na Coluna em 15 de dezembro de 2023, sete anos após aquele primeiro debate. Tanto este último como os dos dias 16/12/16 (citado na nota anterior) e 01/02/17 (aquele direcionado a Safatle), estarão republicados na coletânea que lançaremos em novembro. Cabe lembrar que, além dos textos mencionados aqui, vários outros trataram do assunto ao longo desses 10 anos – como, recorrentemente, os do prof. John Aquino (IFCE), para ficarmos com um entre muitos exemplos.

[4] Sempre que houver citação com aspas tratando de um dos textos da Coluna, ela é extraída do texto em questão.

[5] Além dos dois organizadores, que assinam o presente texto, e do próprio José Crisóstomo de Souza, participam ainda da coletânea, entre membros e colaboradores do grupo: Laiz Fraga, Tiago Medeiros, Hilton Leal, Marcelo de Almeida Silva, Carlos Sávio Teixeira, Roberto Dutra, André Berten, Roberto Mangabeira Unger, Pedro Lino de Carvalho Jr, Matheus Guerreiro e Margareth Rodrigues Coelho Vaz.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.