Especial 8M - Dora Russell contra a reação antifeminista: filosofia, corpo e política nos anos 1920

Camila Kulkamp

Doutora em Filosofia pela UFSC

02/04/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Filosofia e Gênero

Março é um mês dedicado à memória e celebração das lutas das mulheres. Nesse contexto, é fundamental lembrar das pensadoras que desafiaram as estruturas de seu tempo. Entre elas, destaca-se Dora Russell (1894–1986), feminista e socialista que tratou de temas como liberdade sexual, justiça social e crítica à opressão patriarcal. Suas reflexões deixaram contribuições significativas ao pensamento político e filosófico. Ainda assim, seu legado foi apagado: reduzida ao papel de “segunda esposa de Bertrand Russell”, sua trajetória ilustra o apagamento histórico das mulheres na filosofia.

Russell denunciou os desafios enfrentados pelas mulheres de sua época. Para ela, as relações entre os sexos e as dinâmicas de poder no interior da família moldavam diretamente as leis e os costumes sociais. Sua leitura antecipou debates centrais dos feminismos contemporâneos, como a máxima de que “o pessoal é político”. Além disso, criticou a negligência dos movimentos socialistas à “questão do sexo” e sustentou que a luta feminista não deveria ocupar um papel secundário na transformação social. A emancipação feminina, especialmente das mães trabalhadoras, exigia não só direitos políticos, mas também uma reformulação da moralidade, da sexualidade, da família e das bases da sociedade.

Ela analisou a chamada “guerra entre os sexos”, expressão recorrente no início do século XX, mostrando como as primeiras reivindicações feministas foram recebidas com escárnio pelos homens. Em resposta, as mulheres resistiram, enfrentando repressões institucionais e simbólicas. As sufragistas quebraram vitrines, fizeram greves, foram presas e torturadas. A Primeira Guerra Mundial interrompeu temporariamente esse embate, levando à concessão parcial do voto em 1918, mas apenas às mulheres mais velhas, consideradas “menos perigosas”.

Mesmo assim, novas formas de dominação emergiram. Dora Russell descreveu como a dependência econômica imposta às mulheres era uma estratégia de controle, que as forçava a aceitar casamentos desiguais e condições precárias de trabalho. Denunciou também o papel da mídia (jornais, revistas, livros e panfletos) na disseminação de discursos que reforçavam a subordinação feminina. Para ela, tratava-se de uma verdadeira “cortina de fumaça da propaganda”, usada para conter os avanços do feminismo por meio da ridicularização sistemática das mulheres.

Essas reflexões estão reunidas em Hypatia, or Women and Knowledge (1925), obra em que Dora Russell foi além da denúncia política, aprofundando-se nos fundamentos filosóficos da exclusão das mulheres da história ocidental. Um dos eixos centrais de sua crítica é a hierarquia entre mente e corpo, dualismo historicamente mobilizado para justificar a subordinação feminina. Segundo Russell, essa separação é uma construção de uma “filosofia tipicamente masculina”, que impõe dicotomias rígidas: guerreiros versus intelectuais, esportistas versus pensadores, emoção versus razão. Ao questionar esse paradigma, ela propôs uma nova forma de compreender a relação entre mente e corpo, como passo fundamental para desarticular as dicotomias que restringiam não só as mulheres, mas também os homens.

Essa crítica se estendeu a diversos posicionamentos filosóficos que desvalorizavam o corpo humano. Ela rejeitou os valores do mecanicismo moderno, do ascetismo cristão e, especialmente, do materialismo racionalista dos bolcheviques, que, em sua perspectiva, lidava com a sexualidade e com as mulheres sem um verdadeiro “senso de dignidade humana”. Russell vislumbrou a necessidade de uma nova concepção acerca da matéria e da imaginação, cuja formulação ainda estava em gestação, mas que já se mostrava capaz de revolucionar as noções de identidade, corpo e conhecimento, oferecendo, assim, uma compreensão mais integrada da experiência humana.

Essa transformação, para ela, não é apenas teórica. As concepções filosóficas sobre o corpo, a mente e o desejo sustentam as estruturas sociais e políticas. Daí sua afirmação contundente: “filosofia e sexo são mais importantes na política do que as Eleições Gerais” (RUSSELL, 1925, tradução minha). A verdadeira mudança política, argumentou, passa pela forma como vivemos o corpo, o desejo e as relações, e enquanto esses aspectos forem considerados irrelevantes, as opressões persistirão.

Além disso, Russell antecipou discussões que hoje são centrais nos estudos de gênero e nas filosofias feministas; questionou o contrato do casamento; desafiou os ideais de feminilidade e masculinidade, e mostrou como essas construções reforçam desigualdades políticas; e defendeu que os debates morais por trás das decisões políticas costumam ignorar as experiências das mulheres e reproduzir hierarquias excludentes.

Ela também sustentou a defesa da liberdade sexual das mulheres, ainda recente no início do século XX, marcada por forte influência do ascetismo cristão. Reivindicou o acesso a métodos contraceptivos, ao controle da natalidade e à educação sexual ampla como formas de emancipação. Em consonância com sua perspectiva socialista, propôs a distribuição gratuita de alimentos nutritivos como parte essencial da justiça social, especialmente para mães e crianças. Para Russell, as protagonistas mais importantes da transformação deveriam ser as mulheres trabalhadoras, e não apenas as de classe média.

Sua obra constitui uma resposta contundente às críticas reacionárias e antifeministas então em circulação. Entre 1900 e 1950, circularam diversos textos hostis ao feminismo, com críticas que iam desde o direito ao sufrágio até o acesso das mulheres à educação e ao trabalho. Um dos exemplos mais extremos é Lysistrata, or Woman’s Future and Future Woman (1925), de Anthony Ludovici, que adotou uma abordagem marcadamente antifeminista, eugenista e capacitista. Para ele, o industrialismo, a ciência moderna e o feminismo estariam levando à degeneração física e moral da sociedade, ao corroer os “papéis naturais” de homens e mulheres.

Ao evocar a figura de Lisístrata, Ludovici traçou um paralelo entre a greve de sexo das mulheres na comédia de Aristófanes e o feminismo moderno. Mas, ao contrário da Lisístrata original, que buscava um fim patriótico, a paz entre atenienses e espartanos, as feministas do século XX, segundo Ludovici, seriam movidas por um impulso destrutivo, que ameaçava a ordem social e biológica. Ele acreditava que o feminismo desvalorizava a biologia feminina, era hostil aos homens e alienado da realidade corporal: promovia uma imagem desencarnada da mulher e ignorava as experiências concretas das mulheres solteiras e das casadas infelizes.

Em sua fantasia distópica, o feminismo levaria ao colapso da humanidade: a masculinidade seria extinta, o desejo sexual reprimido, e a reprodução natural substituída por inseminação artificial. Um parlamento feminino governaria com hostilidade contra os homens, reduzindo-os a uma casta dispensável, sujeita a massacres periódicos para controle populacional. A sociedade feminista imaginada por Ludovici se tornaria mecanizada, monótona e psicologicamente insustentável. No fim, as mulheres amaldiçoariam as feministas que iniciaram o processo, percebendo que a degeneração física e emocional era irreversível.

Em nítida oposição a essa perspectiva, Dora Russell evocou a figura histórica de Hipátia, filósofa da Antiguidade Tardia assassinada por desafiar normas patriarcais, transformando-a em símbolo da inteligência e da liberdade feminina. A seu lado, incorporou imagens míticas, como Atena, Ártemis, Deméter, entre outras, para construir uma genealogia alternativa que desafia as falsas dicotomias e a moral patriarcal.

Ela também refletiu sobre a estratégia discursiva adotada pelas feministas: para serem levadas a sério em um mundo masculino que as excluía por considerá-las instintivas e corporais, muitas enfatizaram suas capacidades racionais. Mas, para Russell, essa foi apenas uma etapa estratégica. O horizonte da luta feminista, afirmou, deve ir além da valorização da razão contra o corpo: é preciso superar a oposição rígida entre mente e corpo, razão e emoção. Afinal, o que há de mais essencial em homens e mulheres não é sua diferença sexual, mas o fato de serem humanos e, como tais, dignos de compartilhar o conhecimento e de construir uma sociedade justa:

“Ártemis é esguia e audaciosa; Atena é imponente. Fizemos bem em cultuar seus templos. Mas o chamado de Deméter, a Fecunda, é insistente. Se quisermos expandir as conquistas das mulheres que vieram antes de nós, devemos admitir, com franqueza, que temos apenas representado uma falsa modéstia e que, para nós, o corpo não é um mero invólucro da mente, mas um templo de prazer e êxtase: um templo capaz de abrigar o futuro, se assim o desejarmos. A meu ver, a tarefa essencial do feminismo moderno é aceitar e proclamar o sexo; sepultar, de uma vez por todas, a mentira que por tempo demais corrompeu nossa sociedade – a mentira de que o corpo é um entrave para a mente, e o sexo, um mal necessário a ser suportado em nome da perpetuação da espécie” (RUSSELL, 1925, tradução minha).

É instigante perceber como, já no início do século XX, feministas como Dora Russell estavam engajadas em disputas conceituais sobre corpo e razão, antecipando os debates que ganhariam centralidade na chamada “segunda onda feminista” nos anos 1970. Seu texto reflete tanto a complexidade dos embates de sua época quanto os limites de uma filosofia que permanecia centrada em perspectivas eurocêntricas, brancas e capacitistas. Sem ignorar os limites de sua obra, é importante reconhecer que ela também contém provocações e deslocamentos que permitem reimaginar caminhos para o pensamento político e social.

Dora Russell conclamou as feministas de sua geração, e as que viriam depois, a não se acomodarem às conquistas, mas a avançarem. Sua mensagem permanece viva, lembrando-nos da responsabilidade histórica de continuar a caminhada. Antes de avançarmos, porém, é justo reconhecer aquelas que desbravaram os caminhos que hoje percorremos. Como escreveu:

“Nós, que somos, de certo modo, filhas das pioneiras feministas – cujos pensamentos abraçam o universo, cujas vidas compõem um longo ciclo de prazeres mentais e físicos, por vezes intensos até o êxtase –, nós, ao menos, prestaremos nosso tributo àquelas que acenderam os fogos sagrados, antes de empunharmos caneta e papel para criticá-las” (RUSSELL, 1925, tradução minha).


Referências 

RUSSELL, Dora. Hypatia or, Woman and knowledge. Disponível em: < https://www.gutenberg.org/cache/epub/73154/pg73154-images.html> Acesso em: 27 março 2025.

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