Filosofia no Ensino Médio: a inserção das filósofas no currículo
Maurício Rasia Cossio
Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina
Vinícius Arion Aliende Palongan de Oliveira
Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina
29/09/2026 • Coluna ANPOF
Especial | VII Encontro Anpof Educação Básica | Minicursos
Filosofia no Ensino Médio: a inserção das filósofas no currículo
Quando começamos a escrever este texto, o corretor automático do Google Docs marcou como possivelmente errada a palavra “filósofas”. Talvez por nossa insistente mania linguística de universalizar o gênero masculino das palavras. Mas também, talvez porque falar em “filósofas” seja algo ainda estranho dentro de nosso campo de estudo, sempre aparentemente dominado por homens. Inclusive, somos obrigados a confessar que há 10 anos, éramos uma dessas pessoas (ou máquinas) que desconhecem a existência de filósofas.
Porém, elas sempre estiveram aqui.
E quando dizemos sempre, estamos falando desde o início dos registros sobre a atividade filosófica. Por exemplo, caso consideremos a Grécia como “berço” da Filosofia (o que hoje sabemos que também é um erro1), temos, entre os séculos VII e VI AEC, exatamente na mesma época que viveu Tales de Mileto, a presença de Safo de Lesbos. Sua reflexão sobre o belo, e sobre a guerra e a paz, presente no Fragmento 16, continua mais atual do que nunca. Mesmo assim, os livros de História da Filosofia, as inteligências artificiais, e a maioria dos livros didáticos, seguem colocando Tales de Mileto como referência para esse início. E Safo? Nem aparece, afinal de contas não é “filósofa”.
Seguindo a linha da História da Filosofia Ocidental, quando Pitágoras monta sua escola filosófica em Crotona, várias mulheres assumem lugar de destaque, como Teano, Myia e Arignote. De Teano, inclusive, temos um belo tratado chamado “Sobre a Piedade”, onde explica a doutrina pitagórica do princípio matemático da realidade, algo que se Aristóteles tivesse lido não teria feito tanta confusão em sua Metafísica. Isso sem contar que, segundo Diógenes Laércio, “Pitágoras obteve de Temistocleia grande parte de sua doutrina ética”2. Mesmo assim, para a história só interessa Pitágoras. Afinal de contas, Teano era só a sua esposa e Temistocleia a sacerdotisa de Delfos; não eram “filósofas”.
Esse sistemático apagamento das mulheres na História da Filosofia Ocidental vai acontecendo por todas as épocas. Afinal Hildegarda de Bingen era só uma freira (e ainda por cima meio maluca), Trotula de Ruggiero era só uma médica (e pode ser que nem tenha existido), Christine de Pizan só uma escritora, Margareth Cavendish só uma inventora de mundos fantásticos, e por aí vai.
E quando simplesmente não tem como dizer que não são filósofas, foram desmerecidas por tratarem de um tema que segundo os homens não era filosófico: a igualdade entre homens e mulheres. Foi o que aconteceu com Marie de Gournay, Mary Astell, Juana de la Cruz, Mary Wollstonecraft, Olympe de Gouges, Nísia Floresta, Maria Lacerda de Moura… a lista é imensa. Ou aquele outro tema que também incomoda o patriarcado branco, que é a questão da trama entre gênero, raça e classe, sobre o qual discorreram Sojourner Truth, Maria Firmina dos Reis, Esperança Garcia, Lélia Gonzalez e tantas outras.
Enfim, hoje sabemos que na História da Filosofia Ocidental existem tantas mulheres quanto homens, que filosofaram com tanta qualidade quanto eles. E em posse desse conhecimento, temos uma missão epistêmica, ética e política enquanto professoras e professores de Filosofia: INCLUIR AS MULHERES EM NOSSOS CURRÍCULOS. Não apenas como uma espécie de reparação histórica, mas porque sua inclusão nos faz ampliar os limites da própria Filosofia, trazendo novos conteúdos, novas possibilidades e legitimidades epistêmicas, reconfigurando imaginários e abrindo novos campos de estudo.
Mas para além disso, criamos outra coisa: identificação. Quando perguntamos para nossas alunas antes de uma atividade: “você quer estudar um filósofo ou uma filósofa?”, elas se surpreendem e o olho chega a brilhar quando respondem “uma filósofa, é claro!”. Não estamos, assim, pavimentando o caminho para o surgimento de novas filósofas? Mulheres que trarão novos ares para uma academia ainda meio bolorenta, acorrentada num passado onde só os homens decidem o que é ou não filosofia.
Enfim, neste minicurso traremos essas (e outras) questões e pretendemos compartilhar algumas propostas curriculares e formas didáticas de fazer essa inclusão. Também pretendemos compartilhar fontes e referências com a intenção de diminuir gradativamente as invisibilizações e apagamentos e para que possamos povoar nossa história com a presença de cada vez mais mulheres.
1 Tanto a afirmação de que a Grécia seria o “berço” da filosofia, quanto a tentativa de localizar uma origem para a filosofia, qualquer que seja sua localidade.
2 WAITHE, Mary Ellen. A History of Women Philosophers. Vol. 1 Ancient Woman Philosophers. Dordrecht-Boston-Lancaster : Martinus Nijhoff Publishers, 1987. Página 11. Tradução nossa.
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