O especialista em Filosofia

John Karley de Sousa Aquino

Professor de Filosofia do IFCE

01/04/2025 • Coluna ANPOF

O especialista é aquele que domina tudo sobre Platão ou Descartes e sempre pergunta sobre a referência de qualquer afirmação (ou negação) que o leigo faz. O especialista em filosofia é o proprietário das ideias do filósofo que ele pesquisa e se esforça para mostrar que ninguém entendeu o que seu autor quis dizer, mas que somente ele é seu intérprete autorizado. Ele não pensa a partir de si, mas a partir do outro, que é o filósofo europeu ou norte-americano. Ele sabe tudo sobre o contexto do seu filósofo, se estuda Descartes, sabe mais da França seiscentista do que do Brasil atual, se é hegeliano sabe mais das invasões napoleônicas do que da Guerra do Paraguai. Em suma, vive com os pés no Brasil, mas com a cabeça fora.

O especialista em filosofia, que não é filósofo stricto sensu, toma o texto de filosofia como uma verdade revelada a ser interpretada rabinicamente. Os textos filosóficos são lidos não para serem discutidos, mas para serem comentados. Nós, como especialistas, não procuramos falhas no argumento do autor, mas buscamos compreendê-lo e interpretá-lo rigorosamente. Não nos esforçamos para debatermos e superarmos o autor do texto, ou mesmo para aprendermos com ele e utilizá-lo para fins especulativos pessoais, mas para sermos reconhecidos como grandes especialistas em Kant ou Descartes, para sermos verdadeiros Maomés da filosofia: os únicos e legítimos profetas dos filósofos europeus.

Para justificar suas posições de poder e sua autoridade intelectual os especialistas tentam dificultar um escrito filosófico ou convencer os imperitos ou novatos em filosofia de que o texto é hermético, de difícil compreensão, que é necessário saber ler no original, o quanto as traduções não são confiáveis, que todo “tradutor é traidor” e que só podemos entender um filósofo se ler toda sua bibliografia, se entendemos seu contexto e conheçemos sua correspondência intelectual, ou seja, precisamos nos dedicar única e exclusivamente a um autor, fazendo disso o trabalho da nossa vida, esperando o julgamento de outros especialistas para enfim sermos reconhecidos como um deles. Com isso acabamos limitando os “debates” filosóficos no Brasil a interpretações de conceitos e de assuntos em um determinado filósofo, cada especialista insistindo o quanto sua leitura é a melhor e mais correta do que a de outro especialista, que o que o comentador X diz de Y não é correto, que “as coisas não são bem assim”, que é preciso entender o contexto, depende da tradução etc.

Quando o neófito em filosofia escuta ou lê o especialista falando da dificuldade de entender um conceito ou compreender um livro que são como códigos confidenciais que poucos iniciados conseguem decodificar, o aspirante sente-se intimidado e com receio de dizer alguma coisa, por medo de dizer algum absurdo e escutar as conhecidas perguntas feitas de praxe pelo especialista “onde você leu isso?”, “de onde tirou isso?”, “quais suas referências?”, enfim, fica parecendo que pensar por conta própria é um crime, algo que somente o outro, o europeu, tem permissão e nós não.

O especialista depende e é favorecido pelo nosso narcisismo às avessas[1]. Ele precisa reforçar a impossibilidade do desenvolvimento de uma filosofia nacional para manter seu status quo e preservar seus privilégios acadêmicos. Ele precisa nos convencer que filosofia não é coisa para nós e que só resta sermos glosadores de textos filosóficos europeus. E um desses artifícios é o desmerecimento da nossa língua portuguesa direta ou indiretamente. Por isso a questão da tradução e da linguagem é capital para o nosso mandarinato filosófico.

Os nossos peritos em filosofia se dedicam a querelas de tradução em detrimento do debate e da argumentação, e para justificar sua posição de autoridade insistem que só é possível compreender corretamente o autor se lê-lo no original. Se isso for verdade a maioria das pessoas estão condenadas a nunca entender Kierkegaard, afinal não existem muitos cursos de dinamarquês por aí, ou os trabalhadores jamais serão marxistas, pois dificilmente aprenderão alemão e por uma questão de tradução a revolução estaria fadada ao fracasso. Além disso, desmerece o trabalho de tradução que é um trabalho bastante sério e difícil e que contribui com a democratização do conhecimento. Se no Brasil as obras filosóficas não tivessem sido traduzidas, continuando a chegar até nós apenas as versões francesas ou originais dos filósofos, ainda estaríamos excluindo do conhecimento filosófico a maioria da população. Com isso não quero dizer que ler no original é desnecessário, não é isso. Apenas defendo que não precisamos saber alemão, francês ou inglês para elaborar um pensamento autônomo e para fazer filosofia. Os gregos iniciaram a filosofia na língua deles e não na de outros.

Nossa tradição uspiana acabou criando um verdadeiro sistema de inibições que promove entre nós um medo patológico do erro, como se errar fosse algo inaceitável. Ao temermos o erro nós acabamos não tentando, não nos arriscamos, mantendo uma postura cautelosa no que se refere a qualquer iniciativa filosófica. Evidentemente que o achismo e os equívocos devem ser evitados, mas eles são inevitáveis. Nós sempre teremos opiniões sobre um determinado assunto ou tema, o que importa é saber sustentar essa opinião com argumentos convincentes ou mudar de opinião diante de argumentos melhores. Do mesmo modo com o erro. O problema não é errar, mas permanecer no erro, afinal Errare humanum est, perseverare autem diabolicum!

Ninguém duvida da estatura filosofia de Hegel, pode-se discordar dele ou criticá-lo, mas somos obrigados a reconhecer seu mérito intelectual enquanto filósofo. Pois bem, Hegel na sua Filosofia do Direito comete uma gafe intelectual que não seria tolerada pelos nossos especialistas em filosofia. Ele interpreta de forma completamente equivocada a noção de vontade geral de Rousseau. Segundo Hegel, o filósofo suíço teria entendido corretamente que a vontade é o princípio do Estado, mas teria errado ao fazer da vontade individual e da maioria e não da vontade enquanto tal o fundamento do Estado. O contratualismo de Rousseau derivaria dessa concepção equivocada da vontade geral, que faria da vontade da maioria, o coletivo, o elemento fundante do Estado. Diz Hegel,

(...) Rousseau teve o mérito de ter estabelecido como princípio do Estado um princípio que não apenas segundo sua forma (...), porém segundo o conteúdo é pensamento, e de fato é o próprio pensar, a saber, a vontade. Visto que ele apreendeu a vontade somente na forma determinada da vontade singular (como também posteriormente Fichte) e a vontade universal não enquanto o racional da vontade em si e para si, porém apenas enquanto o coletivo, que provém dessa vontade singular enquanto consciente: assim a união dos singulares no Estado torna-se um contrato, que com isso tem por fundamento seu arbítrio, sua opinião e seu consentimento expresso caprichoso. (HEGEL, 2010, §258)

Ora, Rousseau diz exatamente o contrário do que Hegel interpreta[2], ou seja, Hegel leu e entendeu errado o conceito rousseauniano. Isso diminui o mérito de Hegel? Evidentemente que não, porque o que interessava a ele não era ser o melhor intérprete de Rousseau, mas desenvolver um argumento contra o voto per capta e o contratualismo. Por qual motivo aludimos a essa falha exegética de Hegel? Para mostrar que os filósofos são falíveis e que eles não só podem como de fato erraram. O erro não é e nem deve ser um privilégio dos europeus e norte-americanos, nós também podemos falhar, o importante é não persistirmos no erro e estarmos aberto à correção. Em suma, o fundamental da atividade filosófica não é a interpretação, mas a argumentação.

Não é saber ler no original ou o número de citações e notas de rodapé no artigo científico que caracterizam a atividade filosófica, mas a capacidade de argumentação. Ao filósofo interessa levar até as últimas consequências a prática discursiva racional no que Robert Brandom caracteriza como um jogo de dar e pedir razões, “a ideia geral é que a racionalidade que nos qualifica como sapientes (...) pode ser identificada como sendo um jogador no jogo social, implicitamente normativo de oferecer e avaliar, produzir e consumir razões (grifo nosso)” (BRANDOM, 2013, p. 95). Em suma, filosofia nunca foi e continua não sendo leitura e interpretação de texto do filósofo X ou Y, e por mais que seja difícil estabelecer uma definição geral do que seria a filosofia, podemos concordar que se Platão, Hegel e Marx são filósofos, eles fizeram qualquer coisa menos exegese de textos como nós praticamos em nossos departamentos como se fosse filosofia.


Referências

BRANDOM, Robert. Articulando razões: uma introdução ao inferencialismo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2013.

HEGEL, G.W.F. Linhas fundamentais da filosofia do Direito. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2010.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato social e outros escritos. São Paulo: Editora Cultrix, 1978.


Notas

[1] Vide o texto Narcisismo às avessas e a nossa filosofia brasileira (https://ojs.ifch.unicamp.br/index.php/modernoscontemporaneos/article/view/4164)

[2] Segundo Rousseau as diferenças entre vontade geral e vontade da maioria são que a primeira “olha somente o interesse comum, a outra o interesse privado, e outra coisa não é senão soma de vontades particulares; (grifo nosso)” (ROUSSEAU, 1978, p. 41).

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