Teatro e Filosofia: dramatização de palavras-imagens-sonoridades em cena

Sócrates Roberto Fusinato

Pesquisador no GT Deleuze/Guattari (Anpof) e crítico das Artes da Cena

19/10/2026 • Coluna ANPOF

Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos

O presente escrito coloca em cena teatral a proposta de um Curso Filosófico que ocorrerá durante o XXI Encontro ANPOF, de 16 a 20 de novembro de 2026, em Florianópolis, Santa Catarina. O Curso versa sobre as relações entre o Teatro e a Filosofia, em algumas obras filosóficas escritas por Gilles Deleuze, e em escritos de duas criadoras das Artes da Cena, Eleonora Fabião e Ileana Diéguez. Estas relações entre o Teatro e a Filosofia exigem a problematização, a crítica e, para suas criações, usam, a um só tempo, palavras-imagens-sonoridades.

Não existe Teatro sem o gesto de entrar em cena. Um primeiro passo aqui em Curso: um poema-dramaturgia filosófico

uma abertura em instituições fechadas porque muradas

Teatrar

o Teatro é o Agora e se dá, sempre, em cena

o Teatro acontece; é verbo e se conjuga

Agora teatral

um conjugar infinitivo infinito

o teatrar como acontecer e a Vida-em-Comum como teatrar

acontece

cria-se

acontece

tem de criar

acontece

o novo instaura-se

acontece a diferença

em cena filosófica o Agora teatral

 

O filosofar, aqui, é o exercício da crítica, é o “movimento de dramatização” [DELEUZE, 2008, p. 129], que é cênico, mas não representacional, pois não se trata de tornar Verdade Absoluta, a representação de uma Terra, de um Indivíduo, de uma Teoria Filosófica em cena. Dramatização, também, como gesto de criação, ação teatral, ação de encenador, de colocar em espaço-tempo de cena, um movimento de dramatização filosófica que afasta a mediação, a representação [DELEUZE, 2018, p. 26]; afasta-se o atuar em nome dos outros. É tua sempre a ação; sempre, em cena; em cena AÇÃO!

Uma exigência contemporânea que será afirmada no Curso: o exercício da crítica da Ideia Ocidental de representação. Isto, porque a representação coloca em cena uma História que fundou “lugares de legitimação onde se duplicam e se pretendem reforçar presenças”; desse modo, quando se representa alguma coisa ou alguém, legitima-se uma Verdade sobre algo ou alguém; e legitima-se, também, uma Substituição de algo ou de alguém, em nome do movimento de Representação. Representar é colocar em cena a Verdade e a Substituição [DIÉGUEZ, 2010, p. 137].

A crítica ao representacional é uma crítica que se dá no Agora em cena, eis a proposta do Curso que coloca em relação cênica o Teatro e a Filosofia. A crítica, longe de poder falar pelos outros, inclusive, de falar excluindo os outros, estende-se para a Vida-em-Comum e na Vida-em-Comum. Assim, durante os dois dias de Curso, serão problematizados os gestos de agir artisticamente e de politizar o corpo em cena teatral e filosófica [FABIÃO, 2008, p. 237]. A crítica é pública e, em seu exercício, dá-se a ver, em cena, o relacional e a responsabilidade de cada um que a cena habita; o relacional e a responsabilidade de cada um que habita uma Vida-em-Comum. Eis, o filosofar como gesto de teatrar.

A tradição filosófica Ocidental constrói os campos de saber-poder, os campos de poder-saber, fazendo uso de elementos de cena que são indissociáveis; elementos como palavras, imagens e sonoridades. Assim, o teatrar [o Agora que acontece] e o filosofar [a criação de palavras-imagens-sonoridades que atravessam o corpo-pensamento no Agora e para o Agora] se dão como movimento cênico de dramatização de Ideias, dramatização de preconceitos filosóficos e artísticos.

No Curso de Teatro e Filosofia, Nós, que somos Vida-em-Comum a teatrar e a filosofar; Nós, criadores, viveremos a experiência cênica do filosofar em espaço-tempo de Teatro; em espaço-tempo feito de palavras-imagens-sonoridades, criaremos juntos movimentos de dramatização filosófica, em exercícios de prática teatral que acontecerão em uma sala de ensaios da Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC]. Eis, o teatrar e o filosofar em espaço-tempo de cena. Exercícios de teatro e a arquitetura cênica de conceitos filosóficos perpassarão os dois dias de Curso que ministrarei no XXI Encontro ANPOF.


Referências:

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros textos: textos e entrevistas [1953-1974]. Trad. Luis B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminuras, 2008.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. 2. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e terra, 2018.

DELEUZE, Gilles. O que é o ato de criação? [1987]. In: Dois regimes de loucos: textos e entrevistas [1975-1995]. Trad. Guilherme Ivo. São Paulo: 34, 2016.

DELEUZE, Gilles. Um manifesto de menos e o esgotado [Sobre o teatro]. Trad. Fátima Saadi, Ovídio de Abreu e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

DIÉGUEZ, Ileana. Cenários expandidos: [Re]presentações, teatralidades e performatividades. Urdimento, v. II, n. 15, p. 135-148, 5 out. 2010. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573102152010135. Acesso em: 31 mai. 2026.

FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Sala Preta, v. 8, p. 235-246, nov. 2008. Disponível em: https://revistas.usp.br/salapreta/pt_BR/article/view/57373. Acesso em: 31 mai. 2026.

FUSINATO, Sócrates Roberto. Dramatização, filosofia e antropologia teatral. In: JARDIM, Alex Fabiano Correia; COSTA, Paulo Henrique Dias; OLIVEIRA, Adhemar Santos de; ALMEIDA, Michelle Martins [Orgs.]. Deleuze e Guattari, pensar em veredas que se bifurcam: arte e literatura. v. II. Curitiba: CRV, 2022. Disponível em: https://www.academia.edu/164735242/Dramatiza%C3%A7%C3%A3o_filosofia_e_antropologia_teatral. Acesso em: 31 ami. 2026.

FUSINATO, Sócrates Roberto. Filosofia teatral, devir e teatralidade [Coleção XX ANPOF]. In: HEUSER, Ester Maria Dreher; ROMÃO, Amanda de Almeida; MARTINS, Michelle [Orgs.]. Deleuze & Guattari: ente bordas. Toledo: Instituto Quero Saber, 2025. Disponível em: https://www.academia.edu/164754686/filosofia_teatral_devir_e_teatralidade. Acesso em: 31 mai. 2026.