Cartografias do Livramento: o que pode um professor de filosofia na escola da prisão?

Ana Corina Salas Corrêa

Doutora em educação pela UERJ

Maria Eduarda Alves Nascimento dos Reis

Mestranda em educação na UFRRJ

16/09/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Marcio Daniel da Costa Nicodemos
Nefi Edições, 2025 | Acesse aqui

A obra intitulada "Cartografias do livramento: o que pode um professor de filosofia na escola da prisão?", lançada no ano de 2025, integra o acervo da NEFI edições, na sua XX coleção Teses e dissertações.

O livro é resultado da tese de doutorado em educação de Marcio Daniel da Costa Nicodemos, orientada pelo professor Walter Kohan, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma experiência cartográfica do pensar a partir das próprias vivências do autor como professor de filosofia na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), em escolas públicas localizadas dentro de prisões na cidade do Rio de Janeiro. Como o título o anuncia, a pergunta que mobiliza o pesquisador que também se apresenta como andarilho é: o que pode um professor de filosofia na escola da prisão?

Com prefácio do professor Luciano Bedin da Costa intitulado “Ler para produzir livramentos”, o texto é apresentado com uma pesquisa inovadora no campo da educação por se tratar da educação no âmbito do sistema prisional, e, ao mesmo tempo, pelo lugar ocupado pelo pesquisador que nos convoca, por um lado, “à denúncia das práticas resultantes da necropolítica carcerária” (2025, p. 17) e por outro nos instiga, “(...) a pensar o que há de vida sendo produzida (e a ser produzida) apesar e contra esta mesma política.” (2025, p. 17).

Pensada a pesquisa como exploração aberta, se apresenta sob os princípios do rizoma colocado por Deleuze e Guattari (2011), tendo nela conexão, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura assignificante, cartografia e decalcomania. Desenhando-se para o autor como uma tentativa de criação de um mapa aberto que se sobrepõe e pode se sobrepor a outros mapas também abertos, passíveis de ser dobrados ou desdobrados, colados ou cortados, escritos, desenhados, rasgados. Para isto houve uma certa disposição prévia, a de não ter um projeto pensado para ser executado, e sim, ter abertura para “ver surgir a proposta de pensar um esquema que se monta a partir de problemas do próprio campo” (2025, p. 25). Desta forma, no texto, aparecem situações e pensamentos que emergem a partir do próprio campo, e que dialoga, com outros campos, como ampla gama de livros abertos, de autores diversos, que como mapas, se sobrepõem. Entre suas correspondências estão: Suely Rolnik, Eduardo Passos, Virgínia Kastrup, Liliana Escóssia, Silvia Tedesco, etc.

Como o mesmo autor o assinala na sua qualidade rizomática, o texto não tem por que ser lido numa ordem específica. A pesquisa é apresentada a partir de uma proposta, que se anuncia na perspectiva cartográfica, são três momentos centrais, o primeiro é o “Manual do Cartógrafo: o que levar no bolso?”; o segundo é o “Diário de bordo: notas, biografemas e diagramas”; o terceiro é o relatório final: o que fazer com tudo isso? E finalmente a sessão complementar “Uma aposta”.

A partir do movimento de experienciar o pensamento que decorre da vivência em campo, em aula, em relação com o caminho. A produção é uma iniciativa profícua de promoção de experiências filosóficas em escolas prisionais, atravessadas pelas infâncias (pensadas aqui enquanto dimensão filosófica (re)existentes) em contextos de privação de liberdade.

Tão perspicaz quanto audacioso, Nicodemos aposta no convite à Filosofia, que não somente denuncia mazelas e opressões da estrutura carcerária, como promove outras formas de pensar, sentir e habitar o cárcere. Assim, observamos o estabelecimento de relações que encontrarão no ensino de filosofia, abertura para relatar, criticar, atentar e por que não, silenciar?

O livramento nos aparece como possibilidade: de reinvenção de práticas, crenças, valores e certezas. O professor-pesquisador experipensando1 o território da sala de aula, percebe-se um (sobre)vivente, em contrapartida, os alunos encarcerados pensaminham vivências e produzem, com aplicação de conhecimentos filosóficos, seus próprios livramentos. Uma espécie de filosofia da prisão surgiria então de uma prática intencional, que emerge daquele contexto teórico, como, por exemplo, as reflexões sobre as relações entre linguagem, comunicação e silêncio na prisão, para se viver melhor.

Acompanhamos o autor em seus biografemas, referentes aos afetamentos nas escolas prisionais em que lecionou por uma década; os alunos são evocados e nos deixam a dúvida e a angústia da não nomeação. Eis a memória como instrumento de enfrentamento do apagamento colonial a que são submetidos os sujeitos marginalizados em contextos de privação de liberdade e torna-se arquivo sensível dos encarcerados, a partir dos registros escritos e reimaginados por Nicodemos.

Há o aluno astuto e engajado nas aulas de filosofia, que, ao falecer dentro da prisão, reafirma a construção de sentido coletivo. Sua ausência torna-se presença simbólica ao reorganizar o espaço, as dinâmicas relacionais e a didática docente.

Há o aluno que, incapaz de se envolver no exercício proposto e se imaginar como um recém-nascido, pois ao nascer foi lançado à uma caçamba de lixo, viabiliza um contraponto aos pressupostos universais que sustentam muitas das teorias filosóficas.

Há também aqueles que, mesmo não tendo contato direto com os ensinamentos propostos pelo autor, são afetados por eles. Em dado momento, Nicodemos relata uma conversa que teve com um prisioneiro cuja função era manter a ordem na prisão. Ele agradece ao

 

1 duplo movimento de experienciar e pensar um acontecimento (em correspondência) enquanto se relaciona na história, no espaço e no tempo, com reflexões, sentimentos, objetos e pessoas, sob a égide da educação como um campo possibilitador de (re)interpretações.

professor pois os conflitos no espaço passaram a ser solucionados a partir de uma ferramenta oral, sociopolítica milenar: o diálogo. O que a princípio pode causar no leitor certo divertimento, revela o caráter transversal da educação que não se restringe a sala de aula, ao transformar relações e criar condições de convivência mais harmoniosas dentro dos limites do cárcere.

Cartografias do livramento apresenta provocações e debates instigantes e pertinentes sobre os temas de sua relevância, no entanto, é possível identificar limitações na abordagem do autor no que se refere ao apontamento e desenvolvimento dos marcadores sociais e de sua indissociabilidade do locus e universo da pesquisa. Ao tentar se desvencilhar de certas narrativas, corre-se o risco de reafirmá-las: ao discutir categorias universais como liberdade e humanidade considerando os marcadores sociais, sem explorar as implicações de raça, gênero e classe de forma consistente a longo do texto, contribui-se, mesmo que inadvertidamente, para a estereotipação dos sujeitos encarcerados. Considerando que a realidade prisional brasileira é marcada pela predominância de homens negros e pobres, seria enriquecedor o desenvolvimento dessa perspectiva, uma vez que ela é central para a compreensão das dinâmicas do racismo e demais desigualdades que estruturam o sistema carcerário.

Ademais, nota-se a referência a autores/as negros/as, entretanto, o diálogo estabelecido, embora existente, poderia ser expandido com maior densidade e ênfase. Considerando a relevância dos marcadores sociais na centralidade da questão carcerária, seria fundamental que a obra confluísse de maneira mais consistente com esses/as autores/as. Tal aprofundamento permitiria evidenciar a dimensão racial e de classe como elementos estruturantes do encarceramento, possibilitaria a compreensão do sistema prisional operante a partir de processos históricos de exclusão e marginalização e o fortalecimento do caráter interdisciplinar da pesquisa ao articular junto à filosofia, a sociologia e os estudos críticos de raça, assim, valorizando a produção intelectual negra que oferece ferramentas teórico-práticas indispensáveis para compreender a lógica autoritária do sistema carcerário e a complexidade das categorias filosóficas, políticas e culturais envolvidas.

Em síntese, tendo ciência da importância de cartografias do livramento para a discussão nos eixos da filosofia e da educação, e dos contrapontos ideológicos e culturais que promove, defende-se a continuidade da investigação, dialogando com pensadores/as negros/as que abordam questões fundamentais para refletir sobre corpos marginalizados em contextos de privação de liberdade, com seus marcadores sociais em evidência, a fim de aproximar a análise com a realidade social brasileira.

A obra é relevante para docentes e pesquisadores/as que buscam refletir sobre o papel emancipatório do pensamento crítico. Também oferece subsídios para reflexão e implementação de programas educacionais e práticas pedagógicas em ambientes de encarceramento físico e simbólico. Nicodemos aponta a filosofia como instrumento educacional de caráter ético-político e viabilizador de práticas de liberdade. Cartografias do Livramento não se limita as discussões acadêmicas, mas se coloca como um convite para refletir sobre as formas de produção de conhecimento e maneiras de pensar as relações sociais. A obra interessa a qualquer pessoa que queira repensar criticamente os modos como lidamos

com a diferença, a exclusão e a opressão. Por fim, a investigação não é somente descritiva, mas provocativa, e instaura o exercício de um olhar deslocado, capaz de tensionar certezas e convocar o leitor a transformá-las em questionamentos.