O gesto e o vestígio do outro infinito: Resenha de Aceno Longínquo de Roberto Wu
Ricardo Evandro S. Martins
Docente na UFPA; Membro do GT Filosofia Hermenêutica
16/09/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof
de Roberto Wu
7 Letras, 2026 | Lançamento em breve
Em março deste ano de 2026 foi noticiada uma importante descoberta arqueológica: a instituição francesa “Centro Léon Robin para Pesquisa do Pensamento Antigo” foi responsável por encontrar as três páginas ausentes do famoso Palimpsesto de Arquimedes. Trata-se de um pergaminho escrito no século X, atribuído a Arquimedes de Siracusa, contendo diagramas geométricos e passagens do seu Sobre a esfera e o cilindro (CNN Brasil, 2026, online). O curioso desta descoberta está para além da importância de se ter achado as páginas que faltavam. Pois elas sempre estiveram lá, escondidas, relativamente apagadas, encobertas por um texto de orações católicas medievais. É curioso, mas não surpreendente. Pois era comum que em um palimpsesto as suas folhas fossem reutilizadas para inscrição de textos diferentes ao longo do tempo, conforme os interesses de quem o tinha em seu alcance.
Com esta notícia, começo esta resenha da mais nova obra de Roberto Wu (UFSC), de título Aceno longínquo (Editora 7 Letras, 2026). Pois o referido caso do Palimpsesto de Arquimedes é a metáfora central de sua tese filosófica. A investigação do livro de Wu é feita a partir de uma pergunta-problema fundamental: “Quão longínquos são os acenos do passado?” (Wu, 2026, p. 15). A sua metodologia e seus pressupostos ontológicos partem das bases das tradições fenomenológica e hermenêutica, e, ao mesmo tempo, vão além de Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Lévinas, Gadamer e Ricoeur. Endossando o pressuposto hermenêutico-filosófico de Gadamer, quando entendia a tarefa da compreensão como “diálogo infinito”, no seu livro, Wu procurou dialogar com a literatura e com outras tradições: retórica latina; teoria crítica e pós-estruturalismo; ontologia política; antropologia; psicolinguística; além de dialogar com as atuais e urgentes críticas à filosofia continental eurocentrada e heterocisnormativa, desde o que se pode chamar de “giro decolonial”, assim como desde a teoria queer e desde a crítica ao racismo, e ao capacitismo.
De modo mais direto, posso dizer que o objetivo da investigação de Wu em Aceno longínquo é o de interpretar os sentidos pré-reflexivos que operam na dimensão hermenêutica do significado do gesto de se acenar para aquele que está muito longe espaço-temporalmente. O gesto de acenar, aqui, é compreendido como uma ação, uma prática, a qual se realiza numa temporalidade localizada num longínquo horizonte de sentido. Tal aceno é feito por um corpo situado, existente, que tem classe, raça, gênero e especificidades orgânicas, cujo vestígio gestual se move pelo tecido espaço-temporal. E este tecido não é somente físico, ele também é discursivo, histórico, arcaico (arché), cujo aceno longínquo ainda gera efeitos no presente por meio de seus vestígios. Este aceno do corpo, então, resta-se por vestígios como sendo, a quem percebe seu aceno, o outro inalcançável, de um tempo imemorável. Por isto, a investigação de Wu – sobre o quão longínquo são os acenos do passado – é também uma investigação ética, e de implicações políticas, cuja performance do aceno tem a alteridade infinita e o passado imemorial como limites éticos à lida com o ser-no-mundo, com o ser-com aquele a quem se acena, seja por um gesto manual, por um discurso, ou mesmo por diagramas descobertos num texto até então perdido, escondido sob tentativas de apagamento de vestígios mais longínquos.
Acredito que seja válido o esforço desta resenha em sintetizar o que entendo por categorias centrais da investigação de Wu no seu Aceno longínquo. Estas categorias demonstram definitivamente o caráter original, erudito, mas também, como disse, dialógico com questões da atualidade, do presente – este entendido de modo muito mais rico do que pelo seu sentido vulgar, enquanto temporalidade imediata, pois o presente é lido, aqui, como um horizonte de sentido pré-reflexivo, que possui um histórico de efeitos do passado, capaz de causar estranhamento ao “eu” a quem o “tu” acena, quando percebe a natureza “palimpsêstica” deste mesmo passado. Por um esforço de síntese exigido para uma resenha, então, identifiquei como centrais ao Aceno longínquo as três seguintes categorias: i) gesto; ii) vestígio; e iv) lonjura. Entendo que tais categorias dialogam entre si e que, se compreendidas minimamente, podem garantir um melhor diálogo do leitor com o próprio aceno feito por Wu em Aceno longínquo, ainda que nada substitua a experiência de se ler diretamente o seu livro e de se percorrer seus caminhos muito persuasivos, e que demostram a maturidade de sua pesquisa de verdadeira filosofia hermenêutica.
Começando com uma breve explicação sobre a categoria do gesto, destaco que Wu se dedica ao tema logo no Capítulo 1 de Aceno longínquo, intitulado de “Gesto e Significação”. Neste capítulo, Wu oferece um conceito de aceno por meio da fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, especialmente ao seu original destaque dado ao corpo e a sua expressão gestual. Conforme explica Wu, “os gestos foram por muito tempo tomados como suplementos à arte de falar.” (p. 36). Desde a retórica de Quintiliano, pode-se encontrar a primazia do discurso sobre os gestos, consequência da sedimentação preconceituosa da metafísica ocidental, quando tem visto o corpo, e sua expressão, “(...) como sendo um reflexo imperfeito daquilo que o logos pode realizar” (p. 36). Contudo, segundo Wu, foi a partir de Merleau-Ponty que “[a] cisão entre fala e o gesto não sustentam em tal fenomenologia, uma vez que a origem de ambos é ser-no-mundo.” (p. 37). E, não apenas isto, Merleau-Ponty pôde ir além, ao falar que “a intencionalidade originária consiste na motricidade de um corpo que compreende” (p. 27).
Assim, não se poderia falar de um eu transcendental, formal. Com Merleau-Ponty, Wu defende que, “[s]e tudo o que realizamos no mundo está ancorado em nossa situação corporal, então esses atos expressam quem somos e a compreensão de nossa situacionalidade” (p. 40). E enquanto corpos situados, que se expressam pela fala e que falam pela sua expressão corporal, a percepção de como lidamos com os outros no mundo é marcada pela cor deste corpo (Fanon), pela sua subalternização (Spivak), pela sua performance de gênero (Butler) e até mesmo pela deficiência física, neurodivergente, que se possa ter (Mairs). Tais marcas, desse modo, podem determinar os vestígios dos modos como o aceno longínquo se expressa de maneira singular. Sobre isso, Wu concorda com Agamben quando o filósofo italiano disse que o gesto seria a comunicação de uma comunicabilidade: “reconheço na descrição de Giorgio Agamben sobre o gesto (...) o cerne do que indico como aceno, a saber, o gesto originário que comunica uma existência singular e irredutível.” (p. 83).
Aquilo que é singular e irredutível em comunicação, então, apresenta-se como vestígios deste aceno longínquo. Esse tema é tratado no Capítulo 2, de nome “Vestígios do outro”. Tais vestígios implicam o outro que nos acena, e conforme suas características corporais singulares, as quais jamais podem ser reduzidas pela nossa percepção, como se fossem finitas, redutíveis ao nosso olhar. Sobre isto, Wu invoca a concepção de infinitude de Lévinas para defender que o aceno longínquo implica uma ética da alteridade, capaz de preservar àquela existência outra inalcançável. Como diz Wu: “[c]abe notar que o outro não é um subsistente, o que quer dizer que ele não se explica através do vestígio nem vice-versa – vale lembrar a tese levinasiana que considera o outro a partir de sua infinitude.” (p. 137). Deste jeito, ainda que o aceno longínquo seja “o gesto originário por excelência” e também seja “a condição de possibilidade da coexistência” (p. 81-82), o seu vestígio no tecido espaço-temporal não pode alcançar a face do outro na sua totalidade, pois se tem aí um limite ético que impede qualquer gesto totalizante. E esta infinitude da face do outro é análoga ao tempo passado longínquo deste mesmo outro.
Assim, o gesto do aceno e seus vestígios operam na ordem da infinitude ética, mas também do imemorial. Sobre isto, no Capítulo 3, chamado “O longínquo”, explica Wu: “Toda relação com a alteridade, seja esse outro meu contemporâneo ou não, excede o presente ao evocar um passado remoto que não pode ser integralmente reconstituído – a lonjura salvaguarda a alteridade ao remetê-la ao imemorial. A lonjura é condição de recuo dos fenômenos (...)” (p. 221). Como se vê, a categoria da lonjura não é apenas temporal, ela também é do espaço infinito, que tem de ser preservado dos gestos totalizantes, totalitários, ou melhor, como no nosso caso brasileiro, dos coloniais.
Por fim, ouso dizer que Aceno longínquo é mais do que uma tese de professor titular da UFSC. Esta é a obra gestual de Wu, um aceno a quem o lê. Correndo o risco de exceder o preceito metódico de Schleirmacher e de Dilthey, de se poder interpretar o autor melhor do que ele mesmo – mas sem perder de vista a infinitude levinasiana –, diria que Aceno longínquo é o gesto do próprio corpo discursivo de Wu, marcado biograficamente pelo que vou denominar de existência palimpsestica: desde o fato de ter nascido no continente africano, de ascendência oriental, crescido no sul do Brasil; e que por isto é capaz de elaborar uma fenomenologia brasileira de modo que não procura uma história universal, “asséptica das historicidades dos existentes” (p. 229); pois, em verdade, procura acenar de um ponto particular ao outro particular, preservando sua infinitude e sua temporalidade imemorial, uma vez que a nem tudo se pode ver, a nem tudo se pode recordar, e somente perceber um gesto pelos seus vestígios.