Para além da reapropriação: que dinheiro para o comum?

Erik Bordeleau

Pesquisador em Filosofia na Universidade NOVA de Lisboa

03/08/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Émerson Pirola
Editora Fundação Fênix, 2025

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Poucos terrenos são tão ingratos para o pensamento de esquerda quanto o monetário e o financeiro. A crítica costuma oscilar entre a denúncia moral da abstração — o dinheiro como simples vetor de alienação, a finança como pura dominação — e o sonho de um retorno à economia "real", como se bastasse desfazer o feitiço da especulação. Escrever sobre dinheiro a partir da esquerda exige resistir a ambas as tentações, e é raro encontrar quem o faça com fôlego teórico. O livro de Émerson Pirola, versão reelaborada de sua tese, tem o mérito de enfrentar de frente essa dificuldade, e de fazê-lo por uma via exigente: a leitura de Deleuze e Guattari como teóricos monetários.

A própria imagem de capa ilustra com agudeza a violência inscrita no coração da dívida. Nela, um homem aponta uma pistola ao leitor enquanto, ao lado, alguém se debruça sobre os livros de contabilidade: a arma e o livro-caixa, a violência e o cálculo, lado a lado. Longe da neutralidade asséptica com que o dinheiro se apresenta, a dívida é, em Deleuze e Guattari, inscrição e captura antes de ser troca. A contabilidade nunca está longe do gesto que fere e obriga.

O núcleo do livro é uma reconstrução paciente e rigorosa da maquinaria de O Anti-Édipo e de Mil Platôs em torno da questão do dinheiro. Pirola ativa a distinção entre o fluxo de financiamento — o dinheiro potente, criado ex nihilo, dos bancos e do capital — e o fluxo de meio de pagamento, o dinheiro impotente dos salários e da troca. Dessa assimetria, dissimulada sob a aparente homogeneidade do dinheiro, ele extrai uma analítica da sujeição que articula, numa só economia político-libidinal, a criação monetária e o desejo. É um trabalho de leitura genuinamente valioso e conduzido com grande disciplina conceitual, uma razão suficiente para recomendá-lo.

A partir daí, Pirola arrisca. A última parte desenvolve uma perspectiva abertamente utópica. Contra a dívida infinita que nos vincula ao capital, ele propõe um crédito infinito, um "dinheiro do comum" que faria da multidão credora, e não devedora, invertendo o afeto da culpa em alegria. É um gesto ousado, e é preciso saudá-lo como tal. Num momento em que a imaginação de esquerda hesita diante do dinheiro, propor uma imagem abertamente aceleracionista da moeda (é o próprio autor que assume o termo) e sustentá-la com o instrumental de Deleuze e da teoria monetária heterodoxa, da Teoria Monetária Moderna (MMT) à tradição cartalista, é um ato intelectual estimulante que merece respeito e discussão séria.

É no ponto de maior ambição que localizo, contudo, algumas dificuldades que merecem atenção. O problema não está tanto na leitura que Pirola faz de Deleuze quanto na dramaturgia negriana que ele adota para pensar a finança. Nessa peça, o capital é concebido de modo demasiado estático: como um estoque de valor já produzido pela multidão e apenas capturado, de sorte que a tarefa política se reduz a reapropriar esse valor para redistribuí-lo melhor. Todo o gesto consiste em inverter um sinal — dívida infinita em crédito infinito, devedor em credor — conservando intacta a estrutura. Se o comum se torna, ele também, um corpo pleno "miraculante" que emite sua moeda soberana, indexada a uma produção já dada, então o que se propõe é menos uma saída do que o Equivalente Geral com outra bandeira.

Vale lembrar, aqui, o que a própria palavra guarda. Finança vem do latino finer, saldar, e do francés fin: trata-se, desde a origem, de fins, e dizer, de encerrar contas, de fazer os fins se encontrarem. Mas encerrar contas sobre o futuro é apostar sobre um fim que ainda não chegou, e que pode não chegar. Por isso a finança é constitutivamente contingente: seu instrumento por excelência, o derivativo, chama-se, com exatidão, direito contingente (contigent claim), é um título cujo valor pende de um estado do mundo por vir. A finança não administra um valor já dado; ela toma posição sobre fins incertos, e nisso desafia nossos próprios modos de conhecer. É o que mostra Randy Martin em Knowledge LTD (2015): a lógica derivativa é menos um mero cálculo do que uma epistemologia, uma maneira social de apreender, agregar e habitar a volatilidade do mundo. É justamente essa dimensão que o quadro herdado de Negri não alcança. Ao conceber o capital como um estoque de valor à espera de reapropriação, ele perde aquilo que faz da finança algo mais do que um cofre a ser redistribuído: um modo a-venturoso de apreensão do porvir e de suas virtualidades. A finança explora o futuro incerto; descobre valor ao expor-se a ele.

Convém dizer que a alternativa a essa dramaturgia não exige abandonar Marx. Em Justice Is an Option, Robert Meister oferece precisamente outra via marxista para a questão financeira. Em vez de reivindicar a redistribuição de uma riqueza já existente, ele propõe pensar a própria justiça histórica como uma opção financeira, cujo valor, como o de todo derivativo, permanece desconhecido até ser exercido. A justiça teria, assim, um preço finito e calculável no agora, e não a forma de uma exigência infinita dirigida ao Estado. O que interessa reter, para além dos detalhes técnicos dessa proposição, é o deslocamento que opera: aqui o futuro não é um estoque a recuperar, mas uma indeterminação sobre a qual se toma posição, com risco e exposição.

Esse deslocamento já tem corpo e, por uma feliz coincidência, é no Brasil que ele melhor se deixa observar. As moedas sociais, e o Banco Palmas à frente delas, são laboratórios vivos de um dinheiro do comum: aqui o valor não é reclamado de cima, mas inventado, exposto e lastreado no chão de um território. São experiências com que vale a pena pensar, pois mostram o comum não como plenitude já dada, mas como aquilo que se descobre ao arriscar-se.

Essas experiências abrem, enfim, a questão que o livro ajuda a formular ainda que não a percorra: a do cosmo, da pluralidade de mundos. A economia política tende a pensar um mundo único, uma só substância de valor a ser produzida e repartida. É justamente aí que Viveiros de Castro desloca o problema: "a cosmopolítica é a negação ativa da economia política", escreve ele, "mas vai além da 'crítica da economia política'" — e o que assim se abre é a pergunta "sobre os diferentes mundos pós-capitalistas possíveis".1 Transposta à moeda, essa intuição aponta menos para a reapropriação de uma substância comum única do que para uma proposta que eu chamaria de cosmo-financeira: a coexistência de muitas emissões, cada uma lastreada no seu mundo, compondo-se sem se reduzir a um equivalente geral. Não um dinheiro do comum, mas muitos e, com eles, a difícil e fecunda questão da (in)comensurabilidade dos valores entre os mundos.

Nada disso diminui o livro. Ao contrário: é porque Pirola leva a sério, e com competência rara, a questão do dinheiro que se torna possível discutir, a partir dele, os limites do quadro negriano. Dívida, Dinheiro, Controle e além aponta numa direção encorajadora, e faz o que os bons livros fazem: deixa-nos com um problema mais bem colocado do que antes.


1 Eduardo Viveiros de Castro, Cosmopolitica, https://teiadospovos.org/cosmopolitica/.