Resenha do livro de Olavo Calábria intitulado Uma iniciação à 'Crítica da razão pura' de Immanuel Kant

Alexandre Guimarães Soares

Professor Titular da Universidade Federal de Uberlândia

16/09/2026

Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Olavo Calábria
EDUFU, 2024 | Acesse aqui

Nada mais desafiador do que enfrentar a grande e paradoxal invenção conceitual de Kant: o sintético a priori. Entendemos por si e facilmente que uma proposição analítica é a priori, pois nela tudo está dado no conceito do seu sujeito; ela só o explicita no predicado, só analisa sem nada acrescentar. Entendemos também com facilidade que o sintético é a posteriori, pois, como é a expressão de uma proposição empírica cujo predicado acrescenta algo ao que se encontra no conceito do sujeito, só poderia ser enunciada depois da experiência realizada. Em Uma iniciação à “Crítica da razão pura” de Immanuel Kant, Olavo Calábria nos mostra como Kant “cria” uma nova experiência — poderíamos dizer, paradoxalmente, uma experiência pura —, não porque espaço e tempo sejam objetos experimentados, mas porque neles se abre previamente o campo no qual toda experiência de objetos se torna possível. Nesse novo campo, torna-se compreensível como o juízo pode ser sintético sem ser a posteriori. Trata-se do descobrimento de uma nova dimensão da experiência, fundamental para reconsiderar toda a Filosofia e, sobretudo, a Metafísica. Afinal, embora a experiência seja supostamente entendida por todos, sua efetiva descrição e análise, para além das preconcepções, é tarefa hercúlea enfrentada por pensadores de grande legado. É nesse campo revelado da experiência que a Matemática se enraíza e a Física se estrutura – ciências consolidadas que podem servir de exemplo para a reconsideração da própria Metafísica.

Calábria apresenta esse descobrimento de Kant com um entusiasmo contagiante, nos transmitindo, ao mesmo tempo, admiração pelo desafio e prazer pelo seu desenlace, como que nos fazendo vivenciar o “eureca” do próprio Kant. Seu objetivo é desmistificar a opinião comum de que Kant é um filósofo hermético e inacessível. Objetivo esse que se encontra em total sintonia com a Coleção da EDUFU Textos Fundamentais para a Formação em Filosofia. Nela procura-se mostrar, seguindo as pegadas de Aristóteles, que o fundamento do ensino e da aprendizagem é o conteúdo, é o conhecimento de causa do assunto, não é uma metodologia concessiva que subestima o aluno e que lhe nega o hábito e o prazer do estudo. Nessa Coleção, desafio e dificuldades são assumidos como ponto de partida do estudo, cabendo ao autor mostrar como o estudante com leitura e dedicação pode enfrentá-los e vivenciar uma experiência plenamente filosófica. Nesse sentido, só um grande estudioso de Kant, como Olavo Calábria, pode nos ensinar em todos os seus aspectos um assunto tão desafiador quanto o sintético a priori. A verdadeira competência acadêmica não nos afasta, portanto, da capacidade de ensinar – como um certo pedagogismo parece supor – mas não só nos aproxima, como é o seu efetivo fundamento.

A Apresentação da obra esclarece que a sua proposta da iniciação a Kant é pela Introdução da Crítica da razão pura e por sua Estética Transcendental, pautando-se no próprio texto de Kant, traduzido rigorosamente por Calábria como parte essencial do livro. Desde seu início, o autor apresenta o desafio a ser enfrentado citando um trecho da Conclusão da Estética Transcendental: “Agora temos aqui uma das peças exigidas para a solução do problema geral da filosofia transcendental: como são possíveis proposições sintéticas a priori?, a saber, intuições puras a priori, espaço e tempo...”. Ou seja, o conceito de transcendental — reelaborado por Kant e característico de sua filosofia: uma transcendência que não conduz para além da experiência, mas se realiza na abertura prévia das condições que a tornam possível — designa inicialmente a questão das condições de possibilidade dessa experiência que o filósofo descobre como pura.

No capítulo engenhosamente intitulado Habilidades Preliminares, que, em verdade, é uma renomeação da própria Introdução à Crítica, o autor vai justamente habilitar o leitor para o uso dos principais conceitos kantianos. Diferencia começo cronológico do conhecimento da sua origem lógica, explica detalhadamente o que são juízos analíticos e sintéticos e o que são conhecimentos a priori e a posteriori. Calábria nos assinala também que: “Kant distingue ‘juízo’ de ‘proposição’, dizendo que há no primeiro apenas uma relação problemática entre sujeito e predicado e, no segundo, uma relação assertiva (cf. AA 09:109).” Além disso, expõe o factum da ciência como referência da Crítica, ou seja: como há ciências, então pode-se investigar a possibilidade de uma Metafísica como ciência; e a ciência que há se estrutura justamente a partir de proposições sintéticas a priori.

No capítulo A Estética Transcendental, o autor comenta inicialmente, de modo muito instrutivo, a distinção kantiana entre intuição e conceito. Em seguida, muito cuidadosamente, nos apresenta as exposições metafísicas e transcendentais do espaço e do tempo, trabalhando cada argumento avançado por Kant para provar o seu descobrimento fundamental, que consiste justamente em reconhecer que essas noções emergem de um campo de experiência inexplorado, a saber, como dissemos, o da experiência pura. O autor com razão fundamenta na constituição predisposta do funcionamento da mente humana esse novo campo. Além disso, toma acertadamente essa constituição como uma das principais chaves de leitura da Crítica da razão pura.

Retoma, enfim, em sua Conclusão a própria Conclusão da Estética Transcendental, apresentada na abertura como o desafio do livro e o convite à própria leitura da Introdução e da Estética Transcendental. Nesse momento, o estudante já possui as ferramentas para entender plenamente a dificuldade inicial e, por isso, desfruta, como diria Aristóteles, de uma segunda admiração, aquela que corresponde ao desenlace do problema.

Como já dissemos, o livro termina pela longa e cuidadosa tradução da parte inicial da Crítica, permitindo assim uma segunda leitura, então em toda a sua inteireza. Segunda porque, no decorrer do comentário, há indicações de leitura de partes do texto. O próprio autor mostra a importância de ter realizado a tradução como método de estudo e de assimilação do texto, bem como de enriquecimento do próprio comentário. Por exemplo, quando reproduz um trecho do terceiro argumento da exposição metafísica do espaço. Nela o léxico da unidade desempenha um importante papel na explicação, na medida em que se diferenciam “unidade” [Einheit], “um” [ein], “uno” [einigen] e “único” [alleinigen].

Trata-se, portanto, de iniciação em sentido forte, que respeita o estudante, seja do Ensino Médio, seja de Graduação, pois compartilha com ele o desafio da dificuldade filosófica sem subestimá-lo, bem como retira-o da preguiça e letargia intelectual decorrentes de certas abordagens pedagogistas. Ademais, pelo seu rigor no tratamento do texto convida também estudiosos mais experientes a revisitarem a primeira Crítica de Kant.